A aeronave soviética de 544 toneladas que voava a 500 km/h a poucos metros do Mar Cáspio
Dez motores e o efeito solo permitiam que a máquina de quase 100 metros avançasse sobre a água em velocidades próximas às de um avião
Durante a Guerra Fria, imagens de reconhecimento revelaram uma máquina com asas curtas, casco de navio e proporções que não combinavam com nenhum avião conhecido. Ela avançava sobre o Mar Cáspio tão perto da superfície que parecia pesada demais para voar e rápida demais para ser uma embarcação.
Por que o Monstro do Mar Cáspio confundiu a inteligência ocidental?
O veículo era chamado oficialmente de KM, abreviação russa de Korabl Maket, expressão que pode ser traduzida como “navio-protótipo”. Ele foi desenvolvido pelo escritório comandado pelo engenheiro Rostislav Alexeyev, especialista em embarcações de alta velocidade, e construído secretamente na cidade de Gorky, atual Níjni Novgorod. Depois, seguiu desmontado e coberto pelo rio Volga até a base de testes de Kaspiysk.
Quando a enorme estrutura apareceu em imagens de reconhecimento, analistas norte-americanos demoraram a compreender sua função. Documentos do Centro de Estudos de Inteligência da CIA mostram que ela acabou identificada como uma máquina de efeito de superfície movida por motores convencionais, e não como o misterioso avião nuclear que alguns chegaram a suspeitar.
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Como uma aeronave de 544 toneladas voava tão perto da água?
O segredo era o efeito solo, fenômeno que ocorre quando uma asa se desloca muito próxima de uma superfície. A água limita a formação dos grandes redemoinhos sob as pontas das asas, reduzindo parte do arrasto e aumentando a eficiência da sustentação. Ensaios preservados pelo NASA Technical Reports Server mostram que asas próximas ao solo podem apresentar aumento da sustentação e redução do arrasto induzido.
- O casco acelerava sobre a água como uma lancha
- O ar era empurrado sob as asas durante a decolagem
- A proximidade da superfície ampliava a sustentação
- A máquina estabilizava-se a poucos metros das ondas
- O voo de cruzeiro podia superar 400 km/h
O vídeo reúne imagens históricas do KM em movimento e mostra a estrutura navegando, acelerando e finalmente se sustentando sobre o Mar Cáspio. As cenas deixam evidente que ele não flutuava parado como um hovercraft: precisava ganhar velocidade para criar sustentação aerodinâmica e permanecer dentro da estreita faixa em que o efeito solo funcionava.
Quais motores faziam o Monstro do Mar Cáspio sair do mar?
O KM utilizava dez turbojatos Dobrynin VD-7. Oito ficavam concentrados próximos à parte dianteira, em duas fileiras ao lado da fuselagem, e eram empregados principalmente durante a decolagem. Seus jatos podiam ser direcionados para baixo e para trás, lançando ar sob as asas e ajudando a enorme máquina a vencer a resistência da água.
Depois que o veículo alcançava a velocidade e a altura necessárias, dois motores instalados na região elevada da cauda assumiam a propulsão de cruzeiro. Os motores dianteiros podiam ter sua potência reduzida, pois a asa já produzia sustentação com o movimento. Esse arranjo permitia levar uma estrutura de até 544 toneladas a uma velocidade operacional próxima de 500 km/h.
O que os números revelam sobre essa máquina soviética?
O comprimento registrado varia em algumas fontes porque o protótipo passou por modificações durante seus anos de testes. Uma configuração frequentemente documentada media aproximadamente 97 metros, tinha 37,6 metros de envergadura e alcançava 22 metros de altura. Seu peso vazio ficava em torno de 240 toneladas, menos da metade da massa máxima de operação.
| Até 544 t | Massa máxima registrada durante os testes |
| 97,4 m | Comprimento documentado em uma das configurações |
| 500 km/h | Velocidade operacional máxima divulgada |
| 4 a 14 m | Faixa de altura utilizada sobre a superfície |
| 10 motores | Oito para decolagem e dois para o cruzeiro |
O voo inaugural também apresenta divergências conforme o tipo de teste considerado. Corridas sobre a água começaram em outubro de 1966, mas uma fonte técnica detalhada registra o primeiro voo completo em agosto de 1967, com cerca de 50 minutos de duração e velocidade próxima de 450 km/h. A máquina continuou sendo modificada e avaliada durante mais de uma década.
Ele realmente conseguia passar sem ser detectado pelos radares?
A afirmação de que o ekranoplano era completamente invisível aos radares é exagerada. Seu voo extremamente baixo dificultava a identificação por sistemas terrestres de longo alcance, porque a curvatura da Terra faz com que alvos próximos da superfície desapareçam atrás do horizonte do radar. O MIT Lincoln Laboratory registra que a cobertura dos radares antigos era especialmente limitada contra aeronaves em baixa altitude.
Isso não significa que a estrutura pudesse atravessar qualquer área sem ser percebida. Radares instalados em aeronaves, sensores próximos da costa e equipamentos específicos para alvos que avançam rente ao mar poderiam detectá-la. O próprio KM foi descoberto enquanto estava em testes e passou a ser acompanhado por imagens de reconhecimento, provando que tamanho e baixa altitude não garantiam invisibilidade.

Como o Monstro do Mar Cáspio desapareceu durante um teste?
Em 1980, o único KM sofreu um acidente durante uma operação no Mar Cáspio. A máquina levantou a parte dianteira em um ângulo excessivo, perdeu estabilidade e atingiu a água. Os tripulantes conseguiram escapar, mas o veículo era grande demais para ser recuperado com os recursos disponíveis.
O casco permaneceu parcialmente flutuando antes de afundar, encerrando aproximadamente 14 anos de experiências. O projeto deixou conhecimentos usados em modelos posteriores, mas o enorme protótipo nunca entrou em produção. Fotografias atuais frequentemente atribuídas a ele mostram o Lun, um ekranoplano menor preservado no Daguestão; o verdadeiro KM continua no fundo do Mar Cáspio.
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