Vem aí uma guerra China vs Europa
Déficit comercial da UE com a China supera 360 bilhões de euros. Bruxelas ameaça retaliar enquanto Pequim avisa que pode congelar relações
A União Europeia entrou oficialmente em contagem regressiva com Pequim. O comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, reuniu-se em Bruxelas com o ministro chinês Wang Wentao e fixou outubro como prazo para obter resultados “tangíveis” na relação comercial entre os dois blocos.
O recado, porém, veio ainda mais duro do presidente do Partido Popular Europeu, Manfred Weber: se não houver acordo até o outono, a Europa entra numa “fase de conflito” com Pequim.
Por trás da retórica está um número que assusta Bruxelas: o superávit comercial chinês com a UE chegou a 360,6 bilhões de euros em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior, e já cresceu outros 10% nos primeiros quatro meses de 2026.
Na prática, o bloco importa cerca de 1 bilhão de euros em produtos chineses por dia, o equivalente a um choque chinês 2.0, como já chamam autoridades europeias, décadas depois do primeiro choque que esvaziou fábricas ocidentais no começo dos anos 2000.
A Alemanha, motor industrial da Europa, sente o golpe mais forte: o país registrou um déficit recorde de 87 bilhões de euros com a China, o que ajudou a virar Berlim, historicamente cauteloso para não perder acesso ao mercado chinês, para uma postura mais dura.
Não por acaso, a Volkswagen, uma das joias da indústria automotiva alemã, anunciou planos para cortar até 100 mil empregos e encerrar a produção em quatro fábricas na Alemanha, a maior reestruturação de sua história de 89 anos, pressionada por tarifas, custos da transição para elétricos e a concorrência cada vez mais acirrada das montadoras chinesas.
No entanto, a virada para uma postura mais dura não é unânime dentro do bloco. Enquanto a Alemanha pressiona por medidas mais firmes, países como Hungria e Grécia, mais dependentes de investimentos e financiamentos chineses, mostram mais resistência a uma escalada. Essa divisão interna deve influenciar o ritmo e o tom das conversas nas próximas semanas.
As negociações, batizadas de consultas de comércio e investimento, vão tratar de quatro frentes: rebalanceamento comercial, controle de exportação de terras raras, propriedade intelectual e reforma da OMC. Um mecanismo conjunto de monitoramento também foi criado para acompanhar fluxos comerciais em tempo real.
O risco é mútuo. A Europa teme retaliação chinesa justamente nas terras raras, essenciais para tecnologias verdes e sua indústria de defesa. A China já sinalizou disposição para deixar a relação na geladeira caso não obtenha concessões.
A UE, por sua vez, prepara novos instrumentos de defesa comercial, incluindo mecanismos de diversificação de fornecedores e possível revisão de tarifas, além de já aplicar sobretaxas de até 35,3% sobre veículos chineses.
Se as conversas fracassarem, o outono europeu pode marcar o início formal de uma guerra comercial entre as duas maiores potências exportadoras do planeta, com efeitos diretos sobre cadeias mundiais de suprimento, preços de bens industriais e, inevitavelmente, sobre países como o Brasil, que negociam com os dois lados dessa disputa.
Como grande exportador de soja, minério de ferro e petróleo para a China, e de commodities agrícolas como café, carne e açúcar para a Europa, nosso país poderia enfrentar volatilidade nos preços internacionais e pressão sobre as cadeias de suprimentos, especialmente em fertilizantes e insumos industriais.
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