Fed sinaliza rigor maior contra a inflação
Chances de alta de juros em setembro sobem após fala de Kevin Warsh em Jackson Hole
O dólar se valorizou e os juros dos títulos públicos americanos subiram nesta sexta-feira, 28, após declarações do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, no Simpósio de Jackson Hole.
O dirigente defendeu que o controle da inflação continua sendo a prioridade do banco central dos Estados Unidos, cujo índice permanece acima da meta de 2% ao ano. A repercussão imediata incluiu queda nas bolsas de Nova York e recuo do Ibovespa durante boa parte do pregão.
Mercado revê chances de alta de juros
De acordo com a plataforma FedWatch, do CME Group, a probabilidade de elevação dos juros americanos em setembro passou a ser de 55,7%. No dia anterior, prevalecia a expectativa oposta: 64,7% dos participantes apostavam na manutenção da taxa na próxima reunião do Fed.
Warsh avaliou que os indicadores de expectativas inflacionárias aparentam estabilidade, mas que as tendências de fundo não avançaram de forma significativa, com base nos índices de preços ao consumidor (CPI) e de gastos com consumo (PCE): “O foco predominante do Fed neste momento deve estar nos preços”, declarou.
No câmbio, o dólar subiu 0,67%, cotado a R$ 5,1965, enquanto o índice DXY — que mede a moeda americana frente a seis divisas fortes — avançou 0,55%, aos 99,677 pontos. Os rendimentos dos Treasuries também subiram em prazos curtos e longos, com o papel de 10 anos avançando 2,88%.
Comunicação mais reservada desde maio
Segundo o estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, a postura de Warsh busca diminuir o peso das sinalizações diretas do Fed, deixando que o próprio mercado interprete os dados econômicos disponíveis. Ele compara a estratégia à conduta adotada por Alan Greenspan à frente da instituição no passado.
“Ao evitar sinalizações claras, o banco central norte-americano transfere parte da responsabilidade para os investidores, que passam a precificar os riscos com base nos indicadores econômicos”, afirmou Alves.
Desde que assumiu a presidência do Fed, em maio, Warsh reduziu o volume de informações divulgadas pela instituição sobre seus próximos passos. Em Jackson Hole, afirmou estar “comprometido com uma disciplina, não com uma decisão”.
Em junho, havia anunciado a criação de forças-tarefas para revisar comunicados, fontes de dados, produtividade e emprego, além de propor — sem decisão até o momento — reduzir de oito para seis o número de reuniões anuais do colegiado.
Efeitos para o cenário brasileiro
Enquanto os Estados Unidos caminham para uma possível nova alta de juros em 2026, o Brasil já promoveu quatro cortes consecutivos da Selic e avalia reduzi-la novamente em 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Para Alves, esse contraste entre as políticas monetárias tende a limitar o espaço para novos cortes na taxa brasileira.
Segundo ele, a combinação entre juros mais altos nos Estados Unidos, dólar fortalecido, incerteza eleitoral e fragilidade fiscal interna dificulta uma valorização mais consistente do real: “O ambiente externo oferece pouco suporte à moeda brasileira, tornando sua trajetória cada vez mais dependente da evolução do cenário interno”, concluiu.
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