Crusoé: Alemanha desiste de seus maiores navios de guerra
Alemanha desiste de construir seus maiores navios de combate desde a Segunda Guerra Mundial por atrasos e custos bilionários
A Alemanha decidiu abandonar o maior programa de construção naval militar desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O projeto de seis fragatas F126 de 166 metros, projetadas para a guerra antissubmarinos e de superfície, foi cancelado oficialmente nesta quarta-feira (24) pelo Ministério da Defesa alemão. O motivo oficial são os atrasos significativos, os custos crescentes e outros riscos acumulados ao longo dos anos.
O fracasso foi caro. Antes do cancelamento, o programa já havia consumido cerca de 2,3 bilhões de euros em projetos, desenvolvimento de software, obras e pagamentos a fornecedores. Continuar teria elevado o custo total para mais de 18 bilhões de euros, quase o dobro dos 10 bilhões previstos originalmente para as seis embarcações.
A saga começou ainda na era Ursula von der Leyen à frente da Defesa alemã. Em 2020, seu sucessor, Boris Pistorius, encomendou as fragatas ao estaleiro holandês Damen, mas atrasos e problemas forçaram a transferência do projeto para o estaleiro alemão Lürssen, adquirido pela fabricante de armas Rheinmetall em março de 2026.
A Rheinmetall esperava fechar o contrato ainda neste trimestre. Em vez disso, viu suas ações despencarem até 17% na bolsa de Frankfurt, a maior queda intradia em mais de um ano.
Quem ganhou com a decisão foi a rival TKMS. Berlim vai comprar oito fragatas menores do modelo MEKO A-200 ao custo de aproximadamente 6,3 bilhões de euros pelas quatro primeiras, com opção de mais quatro por 5,3 bilhões adicionais. Essas embarcações têm 120 metros e deslocamento de 4.200 toneladas, bem abaixo das 10.500 toneladas das F126.
O cancelamento representa uma mudança de rumo: as F126, projetadas como superfragatas multiuso de alto alcance, dão lugar a embarcações menores e mais ágeis, priorizando a capacidade antissubmarino urgente exigida pela OTAN no Báltico.
Com entrega prevista já para 2029, o novo programa aproveita experiência comprovada da TKMS e mitiga o risco de novas demoras, mesmo que com menor porte e versatilidade estratégica.
O episódio expõe as contradições do atual momento de rearmamento europeu, com governos anunciando aumentos históricos nos orçamentos de defesa, mas tropeçando na execução. O cancelamento alimentou o temor de investidores de que os gastos militares prometidos pelos governos do bloco não se traduzam em contratos reais para as empresas do setor.
Esse não é o primeiro revés no continente…
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