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“A credibilidade do governo está arranhada”

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Antonio Temóteo
5 minutos de leitura 30.10.2021 11:07 comentários
Economia

“A credibilidade do governo está arranhada”

O governo está com a credibilidade arranhada após propor uma gambiarra no teto de gastos para bancar um Auxílio Brasil de R$ 400. A afirmação é do economista Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper e ex-assessor do Ministério da Fazenda, em entrevista a O Antagonista...

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Antonio Temóteo
5 minutos de leitura 30.10.2021 11:07 comentários 0
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Foto: Adriano Machado/Crusoé
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O governo está com a credibilidade arranhada após propor uma gambiarra no teto de gastos para bancar um Auxílio Brasil de R$ 400. A afirmação é do economista Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper e ex-assessor do Ministério da Fazenda, em entrevista a O Antagonista.

Segundo Mendes, o governo é responsável pelo aumento excessivo no preço do dólar e da inflação. O excesso de ruídos políticos, diz o economista, afetam os preços dos ativos no país.

“Se não houvesse tanto ruído político, tanto antagonismo e tanta força para criar divisões na sociedade, a taxa de câmbio estaria mais baixa e a inflação muito menor. Em segundo lugar, o governo vem tentando desde o ano passado, junto com o Congresso, lançar balões de ensaio para furar o teto de gastos”, disse.

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

A equipe econômica perdeu a credibilidade com a gambiarra no teto de gastos?

É uma questão de credibilidade do governo e não apenas da equipe econômica. A credibilidade do governo está arranhada. Tudo vai depender do que vai sair da votação da PEC dos Precatórios no Congresso. Em um primeiro momento, a expectativa era de que o texto seria aprovado rapidamente. Atualmente existem resistências ao desenho originalmente proposto, que pode não ser aprovado.

Como o país chegou nessa situação?

Chegamos a essa situação por uma série de omissões. O governo teve a possiblidade de propor um programa de renda estruturado. Também teve a oportunidade de propor várias medidas de ajuste fiscal que não propôs. Na última hora ocorre esse atropelo com medidas muito aquém do que seria ideal.

Que medidas poderiam ser tomadas antes?

Se não houvesse tanto ruído político, tanto antagonismo e tanta força para criar divisões na sociedade, a taxa de câmbio estaria mais baixa e a inflação muito menor. Em segundo lugar, o governo vem tentando desde o ano passado, junto com o Congresso, lançar balões de ensaio para furar o teto de gastos. Tentaram furar o teto com o plano Marshall de investimentos, não pagando precatórios para aumentar política social, capitalizando empresa pública para construir navios.

O governo também concordou com as decisões tomadas no Congresso para inserir furos de teto na lei de capitalização da Eletrobras. O governo não deu a devida urgência para a PEC Emergencial, que deveria ter sido votada em 2019. Na verdade, tergiversou e criou três PECs diferentes.

O governo tratou de assuntos que não eram prioritários, como a redução de número de municípios e criação de conselho da Republica. E acabou que só conseguiu votar a PEC em 2021 de forma mitigada e sem efeito prático. Houve muita hesitação e falta de capacidade para definir prioridades de política pública. Na hora que os tumultos políticos começam a se refletir nos preços de câmbio e expectativas de inflação, a situação fica bem mais difícil.

O crescimento econômico de 2022 está comprometido?

Eu não faço previsões, mas quem faz essas estimativas reduziu as expectativas de crescimento. E isso não me surpreende. O aumento da incerteza fiscal leva a um aumento de juros, que diminui os investimentos. A consequência disso é menos crescimento econômico. O incerteza fiscal também leva a fuga de capitais ,que desvaloriza o câmbio, gera inflação e incerteza. Por outro lado, o BC, para buscar a meta de inflação, vai ter que apertar os juros de curto prazo. E isso leva a uma contenção do crescimento.

De fato, o ruído criado pelas tergiversações políticas e por essa medida drástica na área fiscal já comprometem a atividade econômica hoje. As pessoas se antecipam. Se elas percebem que a coisa vai ficar ruim no ano que vem, elas começam a se proteger. Procuram investimentos de proteção, não tomam decisões de investimento de maior risco e todo mundo vai para um modo de proteção. E isso já afeta, a partir de agora, o crescimento econômico, mesmo antes da eventual aprovação da PEC.

O Banco Central acerta em acelerar o ritmo de alta de juros?

O Banco Central tem que se guiar pelas expectativas de inflação, que descolaram e subiram muito nas últimas duas semanas. O ambiente se tornou bem menos favorável. Há sempre discursos políticos de intervenção na Petrobras. Isso aumenta muito a incerteza. Na medida em que as expectativas de inflação sobem, o BC tem que, de acordo com seu modelo de atuação,  sinalizar um aumento de taxa de juros.

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Antonio Temóteo

Antonio Temóteo é jornalista formado pelo UniCeub. Foi repórter do Correio Braziliense e do UOL. Nesse período, se especializou na cobertura política e econômica em Brasília. Acompanhou o impeachment de Dilma Rousseff e a aprovação de diversas pautas econômicas no Congresso Nacional. Entre outros prêmios, ganhou duas vezes o Esso de Informação Econômica e duas vezes o Abrapp, focado em matérias sobre fundos de pensão.

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