Versos inéditos de Empédocles são achados em arquivo do Cairo
Fragmento em papiro revela parte inédita do poema filosófico do pensador pré-socrático; descoberta ilustra nova fase de recuperação da literatura antiga
Um fragmento de papiro guardado por décadas sem catalogação em um arquivo no Cairo foi identificado como portador de trinta versos até então desconhecidos de Empédocles, filósofo grego do século 5 a.C.
O documento, registrado sob o código “P. Fouad inv. 218” e pertencente ao acervo do Instituto Francês de Arqueologia Oriental (IFAO), estava em prateleiras do próprio instituto quando o papirólogo Nathan Carlig, da Universidade de Liège, na Bélgica, o localizou em 2017 durante um programa de catalogação de rolos gregos não identificados.
A análise aprofundada teve início em 2021, com a confirmação de que estilo literário e disposição do texto correspondiam aos escritos conhecidos do filósofo. Os resultados foram publicados em conjunto com os filólogos Alain Martin e Olivier Primavesi na obra L’Empédocle du Caire.
Versos que resistiram ao tempo
Os trinta versos pertencem à Physica, o extenso poema filosófico de Empédocles no qual o autor expõe suas concepções sobre a natureza. Até a identificação do papiro, esse trecho era acessível apenas por meio de citações dispersas em textos de autores posteriores, como Platão, Aristóteles, Teofrasto e Plutarco.
Nenhuma cópia direta havia sobrevivido, ao menos não de forma reconhecida. Segundo Carlig, o papiro “permite acessar, pela primeira vez desde a Antiguidade, uma parte da obra do filósofo que se acreditava perdida”.
O que os versos dizem — e com quem dialogam
O conteúdo recuperado aborda a chamada teoria dos eflúvios, pela qual objetos emitiriam emanações microscópicas capazes de interagir com os órgãos dos sentidos, em especial com a visão.
A análise identificou conexões entre o papiro e passagens de Plutarco, além de rastros em textos de Platão, Teofrasto, do comediógrafo Aristófanes e do filósofo romano Lucrécio.
Os pesquisadores apontam ainda que a concepção de Empédocles sobre a matéria — formada por quatro elementos combinados pelas forças do Amor e da Discórdia — pode ter antecipado ideias dos filósofos atomistas, com Demócrito entre os principais representantes.
Em Estrasburgo, conservam-se fragmentos de outras seções do mesmo rolo, identificados em 1992 com a participação de Alain Martin, um dos coautores do novo livro. O papiro do Cairo, no entanto, cobre um trecho que permanecia, até agora, praticamente sem registro.
Um novo ciclo de recuperação do passado
De acordo com a DW, Carlig situa a descoberta dentro do que o papirólogo Peter Parsons chamou de “segundo Renascimento” da literatura antiga.
Assim como humanistas do século 15 vasculharam bibliotecas europeias em busca de manuscritos esquecidos, papirólogos realizam trabalho equivalente desde o final do século 19, examinando textos preservados em papiro.
O achado do Cairo integra esse esforço contínuo de recuperação de obras que o tempo havia, em grande medida, apagado.
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