Um antropólogo (en)contra a tribo identitária
Embora se situe no chamado “campo progressista”, Antônio Risério é um intelectual que não veste espartilho ideológico
Antônio Risério é antropólogo e poeta, ficcionista e crítico cultural. Baiano e universal. Escreve sobre política e literatura, urbanismo e costumes, disputas raciais e música. Seu reconhecimento na universidade foi conquistado com o mérito genuíno do autodidata.
Conhece as categorias da sociologia e os rigores do trabalho acadêmico, mas escreve bem e escreve como escritor. Não o seduziram os rapapés e as pantomimas da intelligentsia, nem padece do “fetichismo do conceito” (Luís de Gusmão). Transita entre a arte e a ciência com a sem-cerimônia que caracterizava Gilberto Freyre.
Veio da esquerda para o centro – não o Centrão político, mas o centro onde a razão se abriga, longe da burrice das extremidades. Nos últimos anos, teve de fincar balizas e estabelecer limites, distinções e fronteiras entre o que lhe parece território habitável e o que se transformou num terreno baldio de ideias, ocupado por stalinistas redivivos e maníacos identitaristas.
Seu passado – incluindo participação na Política Operária (Polop) nos anos 1960, prisão durante o regime militar e atuação em campanhas presidenciais do PT – não o condena. Ele está vivo, está presente. Emergiu como voz dissonante, irritante, intrigante. Risério é, não por acaso, persona non grata por suas críticas ao imperialismo lulista e, mais enfaticamente, aos grupos identitários. Sobre eles, publicou Sobre o Relativismo Pós-moderno e a Fantasia Facista da Esquerda Identitária e Identitarismo. Foi discutido? Adivinhem só.
Risério aponta os desvios da esquerda contemporânea e a necessidade fundamental de repensar o Brasil. Para ele, uma parte significativa da militância de esquerda parece estar mais engajada em discussões pronominais e questões simbólicas do que em lidar com problemas sociais e econômicos concretos, como a expansão das favelas, o desemprego, a violência urbana e a fome.
Crítica ao identitarismo como um novo tipo de determinismo
O cerne das críticas de Risério reside no que ele define como identitarismo. Segundo ele, trata-se de um movimento com origem no sistema universitário norte-americano dos anos 1960, influenciado pelo pós-estruturalismo francês e patrocinado por entidades como a Fundação Ford. O resultado, na visão de Risério, é a formação de uma ideologia que ignora as realidades sociais e econômicas, focando-se excessivamente em termos de raça e sexo. Ele o descreve como um “novo determinismo”, em que o destino individual estaria aprisionado pela anatomia ou pela cor da pele.
Risério argumenta que o identitarismo substituiu o universalismo humanista pelo tribalismo e pela “guetificação” do mundo, tendo sido imposto no meio universitário brasileiro através do que chama de imperialismo cultural norte-americano, com financiamento da Fundação Ford.
Além disso, Risério critica o que chama de “clicheria slogamática” identitarista, caracterizada pelo uso de frases prontas como “racismo estrutural” e “privilégio branco”. Ele considera que essa linguagem, ao lado de expedientes como o “lugar de fala” (que visa calar o interlocutor que discorda), funciona como uma “polícia do pensamento”. Essa militância, que ele por vezes descreve como semiletrada, recorre a insultos como “racista” ou “homofóbico” para inibir vozes discordantes, em vez de apresentar argumentos sólidos.
Reflexões sobre a crise política e a história nacional
A análise de Risério se estende para a esfera política e a interpretação da história brasileira. Ele aponta para uma profunda crise do sistema político, o “partidocratismo”, onde os partidos se tornaram “partidos eleitorais” e agem mais por interesses próprios do que pela representação da sociedade.
Essa crise de representatividade, evidenciada nas manifestações de 2013, que questionaram o sistema político e a noção de que os partidos representavam a população, persiste, a seu ver, apesar de ter sido abafada por eventos posteriores como a Lava Jato e o processo de impeachment de Dilma Rousseff.
O antropólogo critica a esquerda por não ter compreendido ou enfrentado essa crise do partidocratismo, e por se desconectar da realidade social, evitando o pensamento crítico e a autocrítica. Para Risério, a ascensão da direita e da extrema direita no Brasil, em 2018, pode ser vista tanto como uma vitória desses campos quanto um fracasso da esquerda, que se perdeu em discursos deslocados da realidade socioeconômica e se tornou, em parte, uma “denunciante do óbvio”.
Risério também dedica atenção ao que chama de “processo de avacalhação da História do Brasil”. Ele argumenta que, desde os anos 1970, parte da esquerda promoveu uma revisão da historiografia tradicional que, em vez de analisar a experiência nacional em sua complexidade, optou por um maniqueísmo simplista.
Nessa “nova história oficial”, o colonizador português é pintado como o mal absoluto, enquanto pretos e índios são vistos apenas como encarnação do bem e do heroísmo libertário, ignorando, por exemplo, a existência de escravidão entre tupis ou em Palmares. Segundo Risério, essa “contra-história” substituiu mentiras antigas por novas, tratando a história nacional de forma binária e negando ou debochando de conquistas e complexidades.
O antropólogo defende que é fundamental “repensar o Brasil”, revisando sua história com serenidade, lucidez e conhecimento, em vez de repetir clichês. Crítico da “historiografia populista”, que supervaloriza o cotidiano em detrimento de figuras e eventos de relevância nacional, ele insiste na necessidade de analisar a história caso a caso, separando o positivo do negativo, em vez de demonizar o passado por completo.
Risério lamenta que, por conta dessa “avacalhação”, os democratas pareçam ter bloqueado a capacidade de defender o próprio legado nacional, deixando o campo aberto para aventureiros se apropriarem de símbolos pátrios. Já vimos esse filme nas eleições passadas, e corremos o risco de ver um remake nas eleições futuras.
Por essas e por outras, por tantos livros e artigos, que ideólogos de ambos os lados insistem em fazer de conta que Antônio Risério não existe, não nos conhece, não sabe do que fala, não escreve o que escreve, não aponta o que aponta, para que ainda nos seja possível bater forte no peito e, contritos, reconhecer, invocando Sartre: “O inferno são os outros”.
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Comentários (4)
Marcia Elizabeth Brunetti
13.06.2025 18:09Se parte da Esquerda tivesse evoluído para os mesmos pensamentos de Risério Lula, com certeza, continuaria preso e muitos poucos militantes estariam, ainda, na frente da PF de Curitiba dando bom dia e boa noite para esse vigarista, que está na presidência agora.
Rosa
12.06.2025 11:44Parabéns, muito bem analizado
Renata De Paula Xavier Moro
11.06.2025 22:44Sou fã
Carlos Renato Cardoso Da Costa
11.06.2025 20:53É necessário coragem para enfrentar o xiismo do seu próprio campo ideológico. Por isso, e pela clareza de seu pensamento e precisão do seu diagnóstico, Risério está de parabéns!