Svetlana Alexievich, Nobel de Literatura, faz a “crônica do futuro”
Escritora bielorrussa, exilada em Berlim, registra o colapso comunista e o espírito humano através da coleta de depoimentos
A escritora bielorrussa Svetlana Alexievich, laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 2015, continua seu trabalho de documentação da experiência pós-soviética a partir do exílio em Berlim, Alemanha.
Aos 77 anos, registra a frustração de jovens manifestantes que foram às ruas de Minsk, em 2020, contra o sexto mandato do presidente do país. Alexievich, que está fora de sua terra natal há cinco anos, compõe uma nova obra focada nas esperanças esmagadas pela repressão política.
Ela dedicou mais de 40 anos a documentar a vida na União Soviética e nos países que surgiram após sua dissolução, abrangendo eventos como a Segunda Guerra Mundial e o desastre nuclear de Chernobyl. Seus livros, conhecidos como Vozes da Utopia, ironizam o experimento comunista.
Fuga e desencanto político
Após a eleição de 2020, considerada fraudada, a autora presenciou “centenas de milhares de pessoas” marchando diante de sua residência em Minsk. Essa observação gerou uma sensação descrita como “talvez uma das sensações mais fortes que já experimentei na vida” acompanhada de “uma esperança ingênua”.
A escritora integrou o Conselho de Coordenação, um grupo criado para articular a transição pacífica e solicitar novas eleições, mas a esperança se desvaneceu com a brutalidade da repressão. Membros do conselho foram detidos, e Alexievich, com 72 anos, permaneceu como a única em liberdade.
Quando indivíduos mascarados tentaram invadir seu apartamento, diplomatas europeus se revezaram na vigilância de sua casa durante duas semanas. Ela conseguiu embarcar em um voo para Berlim apenas por ter sido acompanhada ao aeroporto pela vice-embaixadora da Alemanha. A escritora não levou muitos pertences, esperando retornar em breve, mas vive na capital alemã há cinco anos com pouca perspectiva de volta.
Em seu exílio, ela reflete sobre o custo das mobilizações: “Talvez tenhamos amado demais as revoluções”.
O romance como documentação da história
Para cada um de seus livros, Alexievich entrevista centenas de pessoas. Combina com cuidado os depoimentos no que denomina “um romance de vozes”. Sua intenção é “transformar a vida cotidiana em literatura” com “peças de arte da vida real”.
A escritora tem uma predileção especial pela fala humana. Em sua conferência do Prêmio Nobel de 2015, afirmou: “Eu amo a voz humana solitária. É o meu maior amor e paixão”.
A autora defende que é função do escritor testemunhar o que as pessoas são capazes de fazer, e diz que a arte é imoral, pois exige que o profissional “espione a dor dos outros”. Mas o compromisso ético existe.
Em um episódio de Vozes de Tchernóbil, Alexievich usou um nome fictício para proteger uma das entrevistas. A mulher pediu a remoção do anonimato: “Eu sofri tanto, ele sofreu tanto. Diga a verdade, mesmo que me custe o coração”.
O livro sobre Chernobyl é uma “crônica do futuro”, e aquele que ela mais deseja que seja lido por todos. A escritora está preocupado com a segurança atômica, especialmente devido aos ataques russos a usinas de energia na Ucrânia, temendo uma nova catástrofe. Ela observa a persistência da mentalidade soviética, o “homem vermelho”, que “está atirando na Ucrânia, está sentado no Kremlin”.
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