Será que até o senso de humor é genético?
Britânicos (que têm um senso de humor bastante peculiar) se propuseram a testar o senso de humor das pessoas, para entender sua origem
Pesquisadores (sempre eles) se propuseram a seguinte questão: o senso de humor é coisa de família? Um estudo recente, conduzido com mais de 1.300 pares de gêmeos no Reino Unido, revela que a capacidade de produzir humor e provocar o riso parece ser quase inteiramente determinada por fatores ambientais.
Essa descoberta, publicada na revista Twin Research and Human Genetics, contraria a ideia de que a aptidão cômica é uma característica inata, sugerindo que ela é mais desenvolvida através de experiências e do ambiente social do que por meio de genes.
Ou seja, não se nasce palhaço. Torna-se palhaço.
Percepção vs. desempenho no humor
Liderada por Gil Greengross, da Universidade de Aberystwyth, a pesquisa é a primeira iniciativa científica a tentar quantificar a – atenção para o titês* – “herdabilidade” da “habilidade de produção de humor”.
Diferentemente de traços cognitivos mais reconhecidos como inteligência e criatividade, que demonstram componentes genéticos de moderados a fortes, o humor não havia sido especificamente avaliado sob essa ótica. Para desvendar essa questão, os cientistas empregaram uma metodologia consolidada em genética comportamental: a comparação entre gêmeos idênticos, que compartilham praticamente todo o seu material genético, e gêmeos fraternos, que compartilham aproximadamente metade.
Os pesquisadores avaliaram o humor de diversas maneiras. Os participantes, com idades entre 21 e 89 anos e predominância de mulheres, foram solicitados a classificar seu próprio senso de humor e a frequência com que faziam os outros rirem.
Contudo, para obter uma medida mais factual da capacidade humorística, foi utilizado um teste conhecido em estudos psicológicos: a criação de legendas para desenhos animados. Cada gêmeo elaborou legendas para dois cartuns sem texto, inspirados em concursos populares. A comicidade dessas legendas foi então avaliada por quarenta jurados independentes, que atribuíram uma pontuação em uma escala de cinco pontos.
Os resultados indicaram uma diferença crucial: enquanto a crença dos indivíduos sobre seu próprio senso de humor exibia uma influência genética moderada – gêmeos idênticos se avaliavam de forma mais semelhante que os fraternos – as pontuações atribuídas pelos jurados às legendas humorísticas revelaram uma ausência significativa de herança genética.
Tanto os gêmeos idênticos quanto os fraternos apresentaram desempenhos semelhantes na criação de legendas divertidas, apontando para a predominância de fatores ambientais, e não de genes compartilhados, como o principal molde da capacidade de fazer rir.
A natureza social do riso e os desafios metodológicos
Os resultados contrariam grande parte da literatura científica existente sobre a herdabilidade de outras aptidões cognitivas.
Gil Greengross disse ao portal PsyPost que “não encontramos nenhum componente de herdabilidade para a habilidade de produção de humor, o que contradiz toda a literatura existente mostrando que habilidades cognitivas como inteligência e criatividade têm herdabilidade substancial”.
Uma das explicações sugeridas para essa peculiaridade é que a criação de humor é profundamente influenciada pelo contexto social. Diferente de testes de inteligência padronizados, o humor depende de aspectos como o momento oportuno, o conhecimento cultural, a fluência verbal e a dinâmica interpessoal – elementos que variam amplamente entre indivíduos e ambientes. Essas nuances tornam a medição da capacidade cômica mais suscetível à educação, ao grupo social e às vivências pessoais.
Outro ponto levantado é que a tarefa de legendagem de cartuns pode não espelhar totalmente a natureza espontânea do humor no cotidiano. Escrever uma legenda em isolamento é uma atividade que demanda esforço cognitivo e pode não ser tão natural, especialmente para os participantes mais velhos do estudo, cuja idade média era de 66 anos. Além disso, notou-se um descompasso entre a autoavaliação do humor e o desempenho real na tarefa de legendagem, o que corrobora estudos prévios que indicam que muitas pessoas, especialmente homens, tendem a superestimar seu próprio senso de humor.
Em qualquer churrasco você descobre isso por muito menos. Mas prossigamos.
Os pesquisadores reconhecem as limitações do estudo, incluindo a predominância de mulheres mais velhas na amostra, o que pode impactar a generalização dos achados para outras faixas etárias e gêneros. A própria metodologia de avaliação do humor, embora bastante utilizada, não reflete a plenitude do humor espontâneo ou performático. Apesar do volume considerável de participantes para um estudo de gêmeos, o tamanho da amostra poderia não ser suficiente para detectar efeitos genéticos muito pequenos.
Diante disso, Greengross enfatiza a importância de cautela, afirmando que “pode ser um acaso; às vezes os estudos não encontram o que esperam mesmo que o efeito esteja lá, ou talvez tenhamos descoberto algo novo, o que é muito emocionante”.
Uma pesquisa de replicação já está em andamento para verificar a consistência desses resultados em uma nova amostra de gêmeos.
A propósito daquele asterisco
*Titês: Relativo a Adenor Leonardo Bachi, (Caxias do Sul, 25 de maio de 1961), mais conhecido como Tite, treinador e ex-jogador brasileiro, que inventou um idioma próprio, em que a regra é complicar o simples, alongar o curto, confundir em vez de explicar.
Algumas indicações sobre os estudos culturais do humor
Uma Historia Cultural do Humor, de Jan Bremmer; História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois; Coisa Que Não Edifica Nem Destrói, de Ricardo Araújo Pereira. Todos disponíveis em português.
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