Rir é o melhor remédio contra o discurso de ódio?
Pesquisa canadense combina análise e experimento para avaliar o impacto de piadas no combate ao extremismo nas mídias sociais
Pesquisadores da Université de Sherbrooke e da Université du Québec à Trois-Rivières conduziram entrevistas e um experimento online para medir a eficácia do humor como ferramenta estratégica no combate à disseminação de discurso de ódio na internet. Emmanuel Choquette, Sylvain Bédard e Amal Ben Ismail são os acadêmicos responsáveis pelo estudo “Is humour effective in combating hate speech? Maybe not so clearly”.
O trabalho combinou métodos qualitativos, por meio de entrevistas semiestruturadas com 11 especialistas, e métodos quantitativos, utilizando o experimento com cerca de 80 participantes. O objetivo era determinar o papel das mídias sociais na circulação de discurso de ódio e as possíveis formas de neutralizá-lo.
As descobertas preliminares, publicadas no The European Journal of Humour Research, indicam uma tendência oposta à esperada pelos pesquisadores. Ao contrário do que imaginavam, os dados indicam que, para combater o discurso de ódio, uma mensagem veiculada de maneira bem-humorada pode ser menos eficaz do que uma versão “séria”, ainda que não moralista.
Além disso, variáveis como a idade dos participantes e sua percepção dos limites da liberdade de expressão demonstraram ter um papel significativo na aceitação e na intenção de compartilhamento do material online.
A surpresa do humor e a reação imediata
O experimento online procurou testar se as atitudes e comportamentos na internet, em especial nas mídias sociais, poderiam ser influenciados pela exposição a uma narrativa alternativa humorística. Os pesquisadores dividiram aproximadamente 80 participantes adultos em dois grupos distintos.
O primeiro grupo assistiu a um vídeo curto de cerca de um minuto, com uma abordagem educativa e não moralista, que servia como narrativa alternativa. O segundo grupo foi exposto a um vídeo semelhante, igualmente educativo e não moralista, mas apresentado com humor.
Ambos os vídeos foram entregues pela mesma pessoa, o principal pesquisador, em um cenário idêntico, mantendo o conteúdo propositadamente genérico.
A principal surpresa do estudo quantitativo foi a descoberta de poucas diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos, o que levanta dúvidas sobre o impacto imediato do humor. Isso sugere que a abordagem humorística pode ter sido menos eficaz do que o previsto, ou que o número de participantes pode ter sido insuficiente para resultados mais robustos.
No entanto, a única diferença que se mostrou claramente significativa foi o fato de que os indivíduos expostos à narrativa alternativa humorística se sentiram mais inclinados a reagir prontamente a uma mensagem de ódio nas mídias sociais. Essa diferença de mais de meio ponto em uma escala de 1 a 5 foi significativa, e contrária às expectativas dos pesquisadores. Em outras palavras, são mais reativos e, por consequência, propensos a participar de alguma maneira na circulação do próprio discurso que pretenderiam combater ou neutralizar.
Outra correlação relevante está ligada à idade dos participantes. Os indivíduos mais jovens demonstraram maior inclinação a concordar com a afirmação de que se deve reagir rapidamente nas mídias sociais, o que não poderia ser considerado uma surpresa, já que pessoas mais jovens utilizam as mídias sociais em maior volume.
O grupo exposto à mensagem humorística manifestou uma concordância mais forte com a ideia de que não deveria haver limite para a liberdade de expressão. Esse resultado alcançou uma significância de mais de 90%.
Conceitos e estratégias de combate ao discurso de ódio
A pesquisa também analisou a dificuldade de conceitualizar a noção de “contradiscurso” e o papel do humor como ferramenta estratégica para combatê-lo. O estudo buscou identificar os tipos de discurso considerados mais eficazes contra o discurso de ódio, e determinar a relevância do humor nesta estratégia.
O discurso de ódio é definido como “todas as formas de expressão que propagam, incitam, promovem ou justificam o ódio racial, a xenofobia, o antissemitismo ou outras formas de ódio baseadas na intolerância, incluindo a intolerância expressa sob a forma de nacionalismo agressivo e etnocentrismo, discriminação e hostilidade em relação às minorias, aos imigrantes e às pessoas de origem imigrante”.
Os conceitos de “contradiscurso” e “narrativa alternativa” não são a mesma coisa.
O contradiscurso é caracterizado por ser “oposicional”, ou seja, “discurso versus discurso”. É uma confrontação direta. É a tentativa de “desmentir” ou confrontar o discurso oposto. Por isso mesmo, seu uso tem limitações. Qualquer pessoa que tenha discutido com um parente sobre qualquer assunto, sabe disso.
Em contexto público, o contradiscurso equivale ao o fact-checking, que consiste em apontar falsidades e corrigir os fatos de forma direta. A percepção, em geral, não é das melhores, porque a “verificação dos fatos” é modulada ou exercida diretamente por “verificadores” – que, na melhor das hipóteses, passam a impressão de serem condescendentes e, na pior, de ser censores.
Por outro lado, a “narrativa alternativa” não equivale a uma reação imediata ou contrastante. Em vez disso, questiona as atitudes ou comportamentos que possam levar ao ódio. A intenção é propor uma história diferente, que sugira uma resposta mais moderada à situação.
A narrativa alternativa se distingue por sua dimensão mais persuasiva e reflexiva. É como o método socrático: mais perguntas que respostas, mais curiosidade que certezas. O objetivo é propor uma alternativa ao discurso, mas com empatia, persuasão, para desconstruir o que é apresentado como autoevidente.
Embora possa ter um impacto menor, ou menos imediato, a narrativa alternativa parece mais eficaz em promover mudanças nas atitudes individuais e coletivas. Ela está inserida em um processo de mudança cultural a longo prazo.
Um exemplo de uso da narrativa alternativa é a plataforma online ProjetSomeone.ca, que se vale de abordagens criativas e educativas para influenciar o comportamento, visando nutrir mudanças positivas e graduais nas atitudes, especialmente em relação à diversidade cultural e religiosa.
A pesquisa optou pela narrativa alternativa na fase experimental devido ao seu caráter menos radical e abordagem mais educativa. Essa estratégia é considerada relevante em contextos onde o objetivo não é responder a um evento específico de discurso de ódio.
O que dizem os estudiosos sobre os “riscos” do humor
Sobre a questão do humor, as opiniões dos especialistas também se dividiram entre um humor mais “radical”, de natureza contradiscursiva, e um humor mais “amistoso”, próximo da narrativa alternativa.
Em tese, o humor que não busca uma resposta direta provou ser mais eficaz. O riso atuaria como um amortecedor de estresse, facilitando o diálogo e provocando reflexão. Mas há riscos. O efeito pode ser oposto, reforçando a vontade da pessoa ofendida de se defender. O humor visto como agressivo parece ter efeitos limitados, funcionando apenas com pessoas já dispostas a concordar.
Ricardo Araújo Pereira, cronista, roteirista e humorista português, que também escreve na Folha de S.Paulo, tem opinião parecida. Para ele, o poder subversivo ou politicamente pedagógico do humor é muito limitado e, sobretudo, controverso. RAP, como é chamado em Portugal, acredita que, ironicamente, o discurso humorístico sobre as questões mais polêmicas é levado demasiado a sério pelas pessoas. Moral da história? Humoristas não derrubam impérios; só fazem piadas sobre imperadores.
Quem estiver predisposto a rir, rirá. Quem não estiver, também rirá. Mas de nervoso.
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