Quando a democracia envenena a própria democracia
Interações sociais dominadas por lealdades políticas ameaçam a amizade cívica, essencial para a autogovernança
A democratização – e, portanto, politização – de todos os debates, interesses ou problemas, pode ser um remédio que, na dosagem errada, compromete o organismo democrático? O filósofo americano Robert B. Talisse, professor da Universidade Vanderbilt, defende que sim.
Talisse argumenta que a crescente e intensa politização de diversas esferas da vida social fragiliza a própria democracia, e a transformação de interações cotidianas corriqueiras em cenários de alinhamento político, evidente em espaços públicos e plataformas digitais, corrói os laços de amizade cívica.
Essa dinâmica, que se manifesta até nas escolhas de consumo e lazer, atrapalha a colaboração necessária entre cidadãos, minando, assim, os fundamentos que permitem a democracia prosperar. O pensador destaca que o ideal de autogoverno coletivo, paradoxalmente, se vê comprometido quando a política satura cada aspecto da existência comum.
Que é a polarização senão a consequência lógica da politização?
A saturação política e o desgaste da convivência cívica
A conceituação de democracia, frequentemente associada a tudo que é benéfico à sociedade, pode, segundo Talisse, ser levada ao extremo. Não se trata de buscar um regime autoritário, mas de resguardar espaços na vida social que não sejam intrinsecamente políticos. No entanto, a noção de autogoverno coletivo tem sido entendida como a ideia de que os cidadãos devem estar em constante engajamento com a tarefa de se governar.
Essa perspectiva teórica se infiltrou na prática. Interações diárias, desde conversas casuais em padarias até discussões furiosas em redes sociais, são moldadas por alinhamentos políticos e adesões ideológicas. A predisposição à “lealdade”, muitas vezes, condiciona o conteúdo das interações no dia a dia.
Nos Estados Unidos, escolhas prosaicas – supermercado, programas de televisão, times ou o destino das férias – correspondem cada vez mais ao perfil político esperado de cada um. Isso restringe as interações sociais a grupos com opiniões similares, criando mundos sociais delimitados pela política – as tais “bolhas”. A vida social, de certa forma, é tiranizada pela democracia, conforme a análise do filósofo.
Esta invasão da vida cívica pela política suprime as bases essenciais para a formação de comunidades e para a cooperação social, elementos vitais para que a própria ética democrática floresça. Para que a sociedade funcione como um corpo político autogovernado, é preciso cultivar uma amizade cívica, que permita aos indivíduos se reconhecerem como “con-cidadãos” e partilharem um destino comum.
Quando as interações se limitam ao confronto político, as divisões se aprofundam, e a amizade cívica se esvai, resultando no desmantelamento da democracia. A ironia é que a tirania da democracia, em última análise, a enfraquece.
O paradoxo dos valores e o caminho para a revitalização democrática
Que os apressadinhos não me entendam mal. Criticar a democratização de tudo não é apostar em uma filosofia política antidemocrática, mas entender que a saúde de uma sociedade depende de uma certa variedade de “alimentos” políticos e uma dieta balanceada em que ingredientes culturais esteja presentes no “prato”.
Nunca foi tão necessário encontrar e promover atividades que facilitem a cooperação com indivíduos de visões políticas distintas. Conversar com estranhos sobre assuntos substanciais que não sejam políticos é fundamental. Construir espaços ou momentos sociais em que a afiliação partidária seja irrelevante. Atravessar o almoço de domingo com a família, sem misturar os partidos políticos com os talheres, é quase um ato pacifista.
A democracia, fundamentada na amizade cívica, não foge a essa lógica. Para aprimorar a prática democrática, é necessário engajar-se com outros em temas não políticos. As vidas cívicas devem ser organizadas em torno de atividades e experiências comuns que não tenham a política em seu centro, em ambientes sociais livres de categorias políticas preestabelecidas.
É preciso, em certa medida, “desconectar-se” da sociedade tal como ela é construída pela política democrática. Em síntese, para fortalecer a democracia, é necessário, por vezes, dedicar-se a algo em que a democracia não conta.
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