Quando a democracia envenena a própria democracia

20.04.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Quando a democracia envenena a própria democracia

avatar
Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 28.08.2025 19:15 comentários
Cultura

Quando a democracia envenena a própria democracia

Interações sociais dominadas por lealdades políticas ameaçam a amizade cívica, essencial para a autogovernança

avatar
Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 28.08.2025 19:15 comentários 0
Quando a democracia envenena a própria democracia
democracia

A democratização – e, portanto, politização – de todos os debates, interesses ou problemas, pode ser um remédio que, na dosagem errada, compromete o organismo democrático? O filósofo americano Robert B. Talisse, professor da Universidade Vanderbilt, defende que sim.

Talisse argumenta que a crescente e intensa politização de diversas esferas da vida social fragiliza a própria democracia, e a transformação de interações cotidianas corriqueiras em cenários de alinhamento político, evidente em espaços públicos e plataformas digitais, corrói os laços de amizade cívica.

Essa dinâmica, que se manifesta até nas escolhas de consumo e lazer, atrapalha a colaboração necessária entre cidadãos, minando, assim, os fundamentos que permitem a democracia prosperar. O pensador destaca que o ideal de autogoverno coletivo, paradoxalmente, se vê comprometido quando a política satura cada aspecto da existência comum.

Que é a polarização senão a consequência lógica da politização?

A saturação política e o desgaste da convivência cívica

A conceituação de democracia, frequentemente associada a tudo que é benéfico à sociedade, pode, segundo Talisse, ser levada ao extremo. Não se trata de buscar um regime autoritário, mas de resguardar espaços na vida social que não sejam intrinsecamente políticos. No entanto, a noção de autogoverno coletivo tem sido entendida como a ideia de que os cidadãos devem estar em constante engajamento com a tarefa de se governar.

Essa perspectiva teórica se infiltrou na prática. Interações diárias, desde conversas casuais em padarias até discussões furiosas em redes sociais, são moldadas por alinhamentos políticos e adesões ideológicas. A predisposição à “lealdade”, muitas vezes, condiciona o conteúdo das interações no dia a dia.

Nos Estados Unidos, escolhas prosaicas – supermercado, programas de televisão, times ou o destino das férias – correspondem cada vez mais ao perfil político esperado de cada um. Isso restringe as interações sociais a grupos com opiniões similares, criando mundos sociais delimitados pela política – as tais “bolhas”. A vida social, de certa forma, é tiranizada pela democracia, conforme a análise do filósofo.

Esta invasão da vida cívica pela política suprime as bases essenciais para a formação de comunidades e para a cooperação social, elementos vitais para que a própria ética democrática floresça. Para que a sociedade funcione como um corpo político autogovernado, é preciso cultivar uma amizade cívica, que permita aos indivíduos se reconhecerem como “con-cidadãos” e partilharem um destino comum.

Quando as interações se limitam ao confronto político, as divisões se aprofundam, e a amizade cívica se esvai, resultando no desmantelamento da democracia. A ironia é que a tirania da democracia, em última análise, a enfraquece.

O paradoxo dos valores e o caminho para a revitalização democrática

Que os apressadinhos não me entendam mal. Criticar a democratização de tudo não é apostar em uma filosofia política antidemocrática, mas entender que a saúde de uma sociedade depende de uma certa variedade de “alimentos” políticos e uma dieta balanceada em que ingredientes culturais esteja presentes no “prato”.

Nunca foi tão necessário encontrar e promover atividades que facilitem a cooperação com indivíduos de visões políticas distintas. Conversar com estranhos sobre assuntos substanciais que não sejam políticos é fundamental. Construir espaços ou momentos sociais em que a afiliação partidária seja irrelevante. Atravessar o almoço de domingo com a família, sem misturar os partidos políticos com os talheres, é quase um ato pacifista.

A democracia, fundamentada na amizade cívica, não foge a essa lógica. Para aprimorar a prática democrática, é necessário engajar-se com outros em temas não políticos. As vidas cívicas devem ser organizadas em torno de atividades e experiências comuns que não tenham a política em seu centro, em ambientes sociais livres de categorias políticas preestabelecidas.

É preciso, em certa medida, “desconectar-se” da sociedade tal como ela é construída pela política democrática. Em síntese, para fortalecer a democracia, é necessário, por vezes, dedicar-se a algo em que a democracia não conta.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Gilmar quer Zema no inquérito das fake news

Visualizar notícia
2

“Desequilíbrio vaidoso e agressivo” de Gilmar “não é hipótese, é fato”, diz Vieira

Visualizar notícia
3

Crusoé: O aperto de mãos da discórdia de Carlos Bolsonaro

Visualizar notícia
4

Gilmar diz não ver crise no STF: “Não concordo com colegas nessa visão”

Visualizar notícia
5

Crusoé: Netanyahu condena destruição de imagem de Jesus por soldado israelense

Visualizar notícia
6

Seif admite falta de votos para barrar Messias no STF

Visualizar notícia
7

Girão critica inclusão de Zema em inquérito das fake news

Visualizar notícia
8

Forças Armadas repassaram R$ 137 milhões ao Banco Master via consignados

Visualizar notícia
9

Caiado defende Kassab como vice e articula chapa do PSD para 2026

Visualizar notícia
10

“Taxação do Pix é ideia do Bolsonaro”, diz Haddad

Visualizar notícia
1

Seif admite falta de votos para barrar Messias no STF

Visualizar notícia
2

Turistas ficam 'ilhados' em morro em meio a operação contra traficantes no RJ

Visualizar notícia
3

Gilmar quer Zema no inquérito das fake news

Visualizar notícia
4

"Taxação do Pix é ideia do Bolsonaro", diz Haddad

Visualizar notícia
5

Crusoé: PT do Rio declara apoio a Eduardo Paes

Visualizar notícia
6

"Pensei que Obama ia me indicar ao Nobel", diz Lula sobre Irã

Visualizar notícia
7

Crusoé: O aperto de mãos da discórdia de Carlos Bolsonaro

Visualizar notícia
8

Entenda por que detesto e não leio textos de IA

Visualizar notícia
9

Marinho aponta “jurisprudência de exceção” de Flávio Dino no STF

Visualizar notícia
10

"Sinal de que a carapuça serviu", diz Zema sobre Gilmar

Visualizar notícia
1

Atirador mata turista canadense em Teotihuacán, México

Visualizar notícia
2

Moro sai em defesa de Zema após pedido de Gilmar no inquérito das fake news

Visualizar notícia
3

7 sopas detox e práticas para a segunda-feira

Visualizar notícia
4

EUA expulsam “funcionário brasileiro” por “manipular sistema de imigração”

Visualizar notícia
5

ITA rompe eixo histórico e leva engenharia de elite ao Ceará

Visualizar notícia
6

Trump promete manter bloqueio naval até acordo com Irã

Visualizar notícia
7

São Paulo registra menor índice de roubos em 25 anos

Visualizar notícia
8

Ultrassom pode virar arma contra vírus respiratórios

Visualizar notícia
9

Alta fidelidade e boca fechada reinventam bares noturnos

Visualizar notícia
10

Grife francesa aposta em imperfeição contra a inteligência artificial

Visualizar notícia

Tags relacionadas

democracia polarização política
< Notícia Anterior

Crusoé: Desaprovação de Gabriel Boric atinge patamar recorde

28.08.2025 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Val Marchiori revela câncer e recebe apoio de Vera Viel

28.08.2025 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Gustavo Nogy

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.