“Por que precisamos enterrar o clichê que palavras são violentas”
Greg Lukianoff, advogado americano, alerta que confundir fala com agressão física legitima a violência e enfraquece a liberdade de expressão
O assassinato brutal de Charlie Kirk provocou aplausos em redes sociais. Milhares de jovens celebraram o ato terrorista com frases como o versículo bíblico “quem vive pela espada, morre pela espada”.
Para Greg Lukianoff, essa reação mostra até onde se espalhou a ideia de que discurso equivale a violência, uma metáfora que ele considera venenosa.
Lukianoff é presidente da Foundation for Individual Rights and Expression (FIRE) e filho de um refugiado russo que fugiu de uma das mais sanguinárias ditaduras da história.
Ele costuma lembrar que famílias de imigrantes vindos de regimes autoritários“levam muito a sério coisas como liberdade de expressão, porque viemos de lugares que não tinham isso.”
Desde 2001, quando ingressou na FIRE como primeiro diretor jurídico, construiu uma reputação de enfrentar restrições vindas tanto da direita quanto da esquerda.
O próprio Lukianoff conta que seu primeiro grande caso, ainda nos anos 2000, foi defender o professor Sami Al-Arian, acusado de vínculos terroristas e demitido por seus discursos.
“Preferimos bater esse ônibus no muro a sermos sem princípios”, resume sobre a decisão de atuar em uma causa impopular.
A organização já contestou iniciativas woke de “diversidade e inclusão” que, segundo ela, restringiam opiniões no meio acadêmico, e também se opôs a leis estaduais de perfil conservador, como o “Stop WOKE Act” do governador Ron DeSantis, na Flórida, que proibia aulas sobre determinados temas ligados a raça e gênero.
Para Lukianoff, o risco vem de ambos os lados. “A maior ameaça da direita são alguns legislativos estaduais”, disse, destacando que a disputa política tenta transformar a defesa da liberdade de expressão em bandeira de um só campo.
No artigo publicado no portal The Free Press, Lukianoff retoma a discussão à luz da morte de Kirk. Ele critica a ideia de que palavras são violência e sustenta que confundir discurso com ataque físico abre caminho para legitimar a força. “Palavras não são balas”, escreve.
O argumento se apoia em decisões da Suprema Corte americana.
No caso Brandenburg, ficou definido que a lei protege até discursos ofensivos, salvo quando há incitação a ação ilegal iminente.
No precedente Texas v. Johnson, reafirmou-se que “o governo não pode proibir a expressão de uma ideia apenas porque a sociedade considera ofensiva ou desagradável.”
Segundo Lukianoff, ao ensinar jovens de que opiniões incômodas equivalem a agressão, abre-se espaço para que eles tratem sua própria violência como legítima defesa.
Dados recentes da FIRE mostram que 34% dos universitários aceitam, em certas circunstâncias, o uso de força para impedir uma palestra; de 70% a 72% aprovam interromper palestrantes até que parem de falar. Em 2021, a taxa de aceitação da violência estava pouco acima de 20%.
Os episódios de confronto em campi reforçam a escalada: a agressão contra a professora Allison Stanger em Middlebury, em 2017; janelas quebradas em evento de Kirk na UC Davis em 2023; o cerco a Riley Gaines em San Francisco no mesmo ano; e os tumultos em Berkeley em 2017 contra Milo Yiannopoulos.
Lukianoff destaca que, apesar de algumas divergências políticas, respeitava em Kirk a disposição de enfrentar críticas de frente.
“Ele comparecia, ouvia perguntas duras, respondia, deixava os alunos responderem”, relata. Para o autor, essa coragem cívica cotidiana vem sendo desvalorizada por uma cultura que faz uma falsa equivalência contestada como dano físico.
Medidas oficiais propostas após o assassinato, como sanções a comentários em redes sociais, também recebem crítica de Lukianoff, que insiste que a resposta a ideias feias deve ser sempre mais discurso, não censura.
Ele também condena represálias privadas, como demissões e campanhas de exposição pública contra quem se manifestou de forma polêmica sobre o caso.
As propostas que apresenta são claras: enterrar o clichê de que palavras são violência; restaurar a tradição universitária de máxima tolerância para a fala e nenhuma tolerância para a força; estabelecer regras simples em campi, com punição para quem interrompe, destrói patrimônio ou agride; e resgatar a coragem cívica de enfrentar discordâncias cara a cara.
“A liberdade de expressão é a melhor tecnologia não violenta para resolver conflitos”, resume. Para ele, honrar quem morreu falando exige reconstruir uma cultura em que nenhuma ideia seja intocável e nenhuma pessoa seja silenciada pela violência.
Tolerância máxima para a fala. Tolerância zero para a violência.
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