Por que as cidades contemporâneas são tão feias?

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Por que as cidades contemporâneas são tão feias?
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Josias Teófilo
5 minutos de leitura 12.11.2022 11:02 comentários
Cultura

Por que as cidades contemporâneas são tão feias?

Murilo Marx no livro Nosso chão: do sagrado ao profano descreve como os espaços públicos nas cidades brasileiras evoluíram do uso predominantemente religioso até o mundano, e as normas do usos desses espaços, antes bem precisas, foram sendo substituídas por regras civis, difusas e nem sempre prestigiadas. Daí, segundo o autor, o usual desrespeito por nossas áreas comuns...

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Por que as cidades contemporâneas são tão feias?
Foto: Luiz França / CMSP

Murilo Marx no livro Nosso chão: do sagrado ao profano descreve como os espaços públicos nas cidades brasileiras evoluíram do uso predominantemente religioso até o mundano, e as normas do usos desses espaços, antes bem precisas, foram sendo substituídas por regras civis, difusas e nem sempre prestigiadas. Daí, segundo o autor, o usual desrespeito por nossas áreas comuns. 

Ainda hoje é possível ver, no centro de cidades como Rio de Janeiro, Recife ou até mesmo São Paulo, o traçado colonial. No Recife, por exemplo, existem alguns pátios ainda preservados, como o Pátio de São Pedro. Nele, ve-sê a hierarquia tradicional no espaço urbano: o caminhante, após passar por ruas estreitas, todas edificadas no alinhamento da rua, é surpreendido por uma construção substancialmente maior, com duas torres que apontam para o alto. O sentido é facilmente apreensível: o espaço urbano não é mais equânime, o sagrado o supera e o transcende.

Com a Proclamação da República e a separação entre o estado e a religião, as igrejas (e os seus pátios), se tornaram menos centrais no espaço urbano. As cidades já não se desenvolvem mais “à maneira de contas de um colar”, com seus “sobrados e casas térreas se amoldando à tipografia”, como dizia Murilo Marx. Antes, as cidades moldam o território, num estrutura diferente das cidades coloniais: os prédios públicos agora são centrais. 

Numa cidade nova como Belo Horizonte nota-se claramente: na Praça da Liberdade, por exemplo, duas fileiras de palmeiras imperiais levam ao Palácio do Governo. A estrutura do estado passa a ser o centro do espaço urbano. Nas cidades mais antigas, a modernização, inspirada na Paris de Haussmann, levou à destruição de importantes sítios históricos como o Monte do Castelo, no Rio de Janeiro, ou a Igreja do Corpo Santo, no Recife. 

Mas ainda assim a transformação não havia sido tão drástica quanto a feita pelo modernismo. Apesar de algumas experiênciais iniciais no Recife com Luiz Nunes e com Warchavchik, em São Paulo, a introdução do modernismo no Brasil se dá oficialmente no governo Getúlio Vargas, com a vinda do próprio Le Corbusier ao Brasil para o projeto inicial do Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio Gustavo Capanema, tendo Lucio Costa e Oscar Niemeyer na equipe. 

Le Corbusier tinha ideias bastante radicais para as cidades, inclusive as brasileiras. Chegou a desenhar um imenso conjunto habitacional que cortaria a cidade do Rio de Janeiro, com uma via expressa passando em cima. O ideal do modernismo corbusiano previa imenso conjuntos habitacionais, com edifícios de uso misto (com habitação, comércio e serviços), e cercado por quadras e jardins, foi bastante influente no Brasil, e chegou a moldar nossa capital: Brasília teve grande influência da Ville Radiuese, cidade ideal projetada por Le Corbusier. 

Esse modelo de habitação foi um fracasso estrondoso pelo mundo. Há imagem e data da falência oficial desse modelo: a implosão do conjunto habitacional Pruit-Igoe, em 15 de julho de 1972. Conjuntos habitacionais tão grandes quantos os concebidos por Le Corbusier se tornaram imensos problemas administrativos. No Brasil, esses prédios, alguns deles tão populosos quanto cidades, atraíram marginalidade, acumularam problemas administrativos e de conservação. 

E pior: eles não se harmonizam com as construções de períodos históricos anteriores, o que produz um aspecto de confusão que gera, simplesmente, feiura. Mas não é o modernismo exclusivamente responsável pela feiura nas cidades. O ideal modernista prevê cinco pontos: pilotis, plantas livre, fachadas livres, janelas em fita e terraço jardim. Mesmo nos edifícios modernistas históricos do Brasil não encontramos mais todos esses elementos. Nos pilotis, por exemplo, não se pode circular livremente, como acontecia no passado – a não ser em Brasília, que tem uma legislação firme com relação a isso. 

Chegamos a um fator principal da feiura nas cidades contemporâneas brasileiras: a criminalidade e a insegurança. As casas e prédios nas cidades brasileiras atuais precisam se cercar como fortalezas para evitar a criminalidade – a ponto de o nosso país poder enfrentar com sucesso uma invasão zumbi. 

Casas modernas ou clássicas ficam atrás de muros altos, por vezes com guaritas ou cercas elétricas. A insegurança faz as pessoas saírem de casas para morar em prédios. E os prédios, com centenas ou milhares de habitantes, precisam ser administrados e conservados – quanto maior o prédio, mais difícil a sua administração. O fracasso na administração de um único edifício afeta toda a cidade. 

Além disso tudo, as cidades brasileiras enfrentam outro problema que afeta seriamente a sua aparência: a fiação externa. Além da feiura, a fiação externa causa perigo aos transeutes  e problemas com as árvores – que muitas vezes são cortadas para não afetá-la, e vai se acumulando para os diversos usos (eletricidade, internet, telefonia). O ideal modernista eram prédios altos cercados por árvores e jardins – a fiação externa afeta também esse elemento. 

Esses são alguns dos fatores que fizeram as cidades brasileiras, que no passado colonial se espalhavam no terreno à maneira das contas de um colar, tomaram o aspecto disforme que tem hoje. 

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