Os efeitos da leitura (e de sua falta) no cérebro
Nossa atenção tem sido capturada por estímulos digitais, e o hábito de ler está se transformando – ou se perdendo
A leitura, uma habilidade complexa e fundamental para o desenvolvimento humano, não é inata, mas sim uma conquista civilizacional que transformou a mente e a sociedade. Por isso mesmo, por ser, digamos um “hábito adquirido” e não uma predisposição natural, pode ser uma capacidade perdida.
A cientista cognitiva Maryanne Wolf, autora de O Cérebro Leitor, alerta que os hábitos digitais modernos estão colocando em xeque nossa capacidade de leitura profunda, essencial para a compreensão complexa e o pensamento crítico.
Em um cenário onde a distração é constante, o futuro dessa habilidade cumulativa, que molda o cérebro, depende de um esforço conjunto e persistente para reavivar o apreço pelos textos.
A engenharia cerebral da leitura
O cérebro humano, embora nasça com circuitos para a visão e a fala, não possui um circuito preexistente para a leitura. A capacidade de decifrar símbolos visuais e associá-los a conceitos, emoções e sons surgiu há cerca de 6 mil anos, exigindo uma notável adaptação cerebral.
Pesquisadores acreditam que nossos ancestrais “reciclaram” circuitos antigos, originalmente usados para o reconhecimento de objetos, para desenvolver essa nova habilidade. Os sumérios, na Mesopotâmia, são apontados como precursores da escrita cuneiforme por volta de 3300 a.C., em um período semelhante ao desenvolvimento dos hieróglifos egípcios.
A leitura ativa simultaneamente múltiplas áreas em ambos os hemisférios cerebrais, conectando letras e palavras a seus sons e significados. Experimentos, como o conduzido por David Swinney, revelam que ler uma palavra simples pode evocar todo um acervo de conceitos relacionados, demonstrando a vasta rede neural acionada. Adicionalmente, o idioma que aprendemos influencia distintamente o cérebro.
De acordo com a autora de O Cérebro Leitor, sistemas logográficos como o chinês, onde símbolos representam ideias, ativam regiões cerebrais específicas, como as de memória e associação visual, de forma diferente de idiomas alfabéticos como o português ou o inglês.
Mergulhar em uma história, seja qual for o idioma, provoca mudanças cerebrais contínuas, formando novas conexões entre áreas visuais e de linguagem, e estimulando a imaginação e a empatia. Esse processo sofisticado, que Wolf denomina “leitura profunda”, começa na infância, com bebês ouvindo histórias e interagindo com livros ilustrados, mesmo antes da alfabetização formal.
A crise da leitura e a urgência do cultivo literário
Apesar da intrínseca capacidade de adaptação do cérebro à leitura, Wolf identifica uma “crise de leitura” impulsionada por hábitos digitais. Em uma palestra alguns anos atrás, o teórico da comunicação e da mídia Clay Shirky, autor de Lá vem todo mundo e Cultura da participação, inquiriu sua audiência com a pergunta, misto de provocação e curiosidade: “Quem ainda seria capaz de ler Guerra e Paz (extenso livro do russo Liev Tolstói) por inteiro?”.
A predominância da leitura superficial – o “passar os olhos” em textos online, frequentemente interrompida por notificações – compromete a imersão, a compreensão de argumentos complexos e a capacidade de análise crítica. No Brasil, uma pesquisa de 2024 revelou que apenas 27% dos participantes leram um livro inteiro (e não era Guerra e Paz…) nos três meses anteriores. Isso se os participantes disseram mesmo a verdade.
O excesso de exposição digital, especialmente em crianças pequenas, tem sido associado a um desempenho escolar inferior e à diminuição da capacidade de atenção. Um cérebro hiperestimulado tende a buscar novos estímulos em intervalos cada vez menores, levando ao tédio quando offline. Para adolescentes, que chegam a dedicar quase 40% do dia a atividades em telas, o tempo para a leitura de lazer é drasticamente reduzido, impedindo o desenvolvimento da leitura profunda.
Além disso, a dislexia, uma dificuldade de aprendizado que afeta entre 4% e 10% da população global, representa um desafio adicional. Crianças com dislexia, que muitas vezes enfrentam dificuldades em distinguir sons ou recordar informações, podem ser erroneamente rotuladas como incapazes. Contudo, muitos disléxicos demonstram inteligência e criatividade excepcionais, com figuras históricas como Leonardo da Vinci e Albert Einstein sendo cogitados como exemplos.
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