O realismo ambiental e tecnológico de Vaclav Smil
Descarbonização total, inteligência artificial abrangente e milagres na saúde pública são metas inviáveis a médio prazo
Bill Gates, fundador da Microsoft, não perde um livro dele. Contrário tanto a futuristas propensos a denúncias apocalípticas quanto a entusiastas da salvação tecnológica, o professor Vaclav Smil, especialista em estudos interdisciplinares e Fellow da Royal Society of Canada, emerge como uma voz de prudência e ceticismo.
Em sua análise, nos muitos livros, artigos e entrevistas, ele adverte sobre a necessidade de cautela diante das alegações grandiosas que cercam as novas tecnologias, especialmente no campo da inteligência artificial (IA), da saúde e da transição energética.
O conceito de “inovação” se tornou um verdadeiro mantra do século XXI, com frequência aplicada a contextos que têm menos de ciência e mais de propaganda. Smil argumenta que essa obsessão muitas vezes se traduz em um rótulo superficial para o que são, na verdade, avanços incrementais que empurram para debaixo do tapete os problemas persistentes. E sujos.
Tecnologia, saúde e marketing
No que diz respeito à medicina, as expectativas infladas frequentemente superam os ganhos práticos. Promessas de avanços significativos na “guerra contra o câncer”, no combate ao declínio cognitivo associado ao envelhecimento e na personalização da medicina baseada na genética têm sido recorrentes.
Embora ganhos importantes tenham sido observados, como o rápido desenvolvimento de vacinas de mRNA durante a pandemia de Covid-19 e o aumento das taxas de sobrevivência para certos tipos de câncer, um “progresso grandioso e abrangente” ainda não se materializou.
Pelo contrário, o panorama da saúde global revela alguns retrocessos, incluindo a queda da expectativa de vida nos Estados Unidos para o nível mais baixo em duas décadas até 2023. Países ricos como Canadá, Austrália e Noruega enfrentam longas filas de espera para cirurgias comuns, e a Europa, com sua população envelhecida, lida com uma escassez de 1,8 milhão de profissionais de saúde. Segundo o professor, desafios como esses não serão resolvidos pelo consumo em massa de novos medicamentos para a obesidade.
O ceticismo é ainda mais explícito quando sua atenção se volta para as previsões sobre inteligência artificial. Enquanto o cientista da computação Ray Kurzweil prevê que “singularidade” tecnológica será atingida até 2045 – quando a inteligência das máquinas superaria a humana, levando à imortalidade e à expansão da inteligência pelo universo –, Smil categoriza tais afirmações como “hipérbole superingênua”.
Ele questiona a retórica de figuras como Marc Andreessen, que afirma que a IA “salvará o mundo” e “melhorará tudo o que nos importa”. Para Smil, emoções e interesses à parte, os grandes modelos de linguagem generativa não parecem capazes de impulsionar transformações fundamentais em questões críticas como a eliminação de armas nucleares, o desenvolvimento econômico da África ou o fim da desnutrição.
Descarbonização global? Vai demorar
Vaclav Smil, que já é cauteloso no que diz respeito ao entusiasmo pela IA, é ainda mais prudente – quase pessimista – ao falar da inovação em saúde e, principalmente, energia, sua especialidade. Embora se ouça falar constantemente sobre avanços de alta tecnologia para descarbonizar o uso global de energia até 2050, a realidade é desafiadora. Na melhor das hipóteses.
Desde o Protocolo de Quioto, em 1997, as emissões globais de CO2 aumentaram 61%, atingindo um novo recorde em 2023. Para o autor de Os números não mentem e Como o mundo funciona, as chances de reverter essa tendência abruptamente são “mínimas”. Alcançar a neutralidade de carbono até 2050 exigiria uma redução média anual de cerca de 1,5 gigatoneladas de CO2, o equivalente às emissões combinadas de Alemanha, França, Itália e Polônia em 2023.
Os obstáculos para as soluções técnicas disponíveis são imensos, principalmente em termos de escalabilidade e custos acessíveis. A produção de hidrogênio verde, por exemplo, é marginal (0,4 megatoneladas em 2024) em comparação com o hidrogênio “negro” derivado de hidrocarbonetos (95 megatoneladas).
A descarbonização da produção primária de aço e amônia projetada para 2050 exigiria cerca de 150 megatoneladas de hidrogênio verde, um aumento de quase 400 vezes na produção de 2024. A infraestrutura global continua a adicionar novos conversores de combustíveis fósseis anualmente, como mais de mil novos jatos e centenas de navios de contêineres, sem alternativas comerciais não-carbono amplamente disponíveis e acessíveis. O custo de uma bomba de calor, por exemplo, pode ser inviável para bilhões de pessoas em regiões de baixa renda que demandam climatização.
De acordo com o cientista tcheco-canadense, uma civilização sem combustíveis fósseis até 2050 é “uma meta irrealista”. Ele aponta que muitos países populosos e de baixa renda precisam aumentar seu uso de energia rapidamente, o que não pode ser feito sem combustíveis fósseis nas próximas décadas. A maneira mais eficaz de frear o aquecimento global, embora impopular, seria “consumir menos de tudo”.
Ao analisar os últimos 150 anos, Smil observa que, embora tenhamos presenciado avanços científicos e invenções técnicas sem precedentes, o ritmo geral não é de aceleração. A única exceção notável tem sido a capacidade de computação.
Os fundamentos físicos da civilização moderna, contudo, não sofreram mudanças radicais nas últimas cinco décadas. Ainda geramos eletricidade com turbogeradores a vapor, produzimos aço em altos-fornos e movemos transporte com motores a combustão.
Para Smil, as inovações mais impactantes e consequenciais têm sido os ganhos incrementais em eficiência e desempenho, que reduziram custos e encargos ambientais, tornando produtos mais acessíveis e melhorando a qualidade de vida de muitas pessoas.
Mais do que otimismo, o importante é manter a perspectiva diante de futuras “alegações acríticas sobre as mais recentes inovações que mudariam o mundo”.
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