O que é o Teste de Rorschach, visto na série ‘Tremembé’
Ferramenta para análise da personalidade volta a gerar interesse após aparecer em produções audiovisuais sobre casos criminais
Quem nunca se deparou, em algum momento, com aquelas estranhas manchas que, para muita gente, remetem a morcegos, borboletas ou máscaras assombrosas? É o Teste de Rorschach, instrumento de avaliação psicológica concebido em 1921 pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach.
O interesse popular ressurgiu no país com sua representação em produções como a série ‘Tremembé’, na qual a detenta Elize Matsunaga passa pela avaliação.
O teste é composto por dez fichas que contêm manchas de tinta simétricas. O objetivo é investigar a personalidade do indivíduo por meio da análise do que ele projeta nas imagens. Na semana de estreia da série, as buscas pelo Rorschach aumentaram cinquenta vezes, alcançando um dos picos mais altos da última década, segundo dados do Google Trends.
O que é um teste projetivo?
O Rorschach é classificado como uma técnica projetiva. A ideia é que o sujeito externalize suas emoções e pensamentos próprios através das respostas fornecidas. O trabalho de interpretação e análise é estabelecido a partir de um sistema de codificação de padrão internacional.
A psicóloga Anna Elisa de Villemor-Amaral, fundadora da Asbro (Associação Brasileira de Rorschach), enfatiza que o foco reside no caminho percorrido pelo avaliado, e a análise transcende o conteúdo verbalizado.
Villemor-Amaral explica que “a partir das respostas, o trabalho de análise e de interpretação é todo baseado numa codificação internacional, não na subjetividade”. O foco do exame reside integralmente no processo perceptivo e mental do indivíduo. A especialista reitera que “não é a resposta em si que é avaliada somente, mas todo o processo mental, processo perceptivo da pessoa”.
Não existe uma resposta considerada “certa” para as pranchas, pois a avaliação se concentra na forma como a pessoa chega à sua conclusão. Pesquisadores e especialistas vêm aprimorando a metodologia de interpretação e comprovando a validade do instrumento ao longo de mais de 100 anos de uso.
Limites e controvérsias em torno do Rorschach
O Teste de Rorschach ainda é considerado uma ferramenta útil para demonstrar o funcionamento psíquico de uma pessoa, ainda que, isoladamente, não seja considerado definitivo para o fechamento de um diagnóstico (como, a propósito, nenhum teste psicológico, seja projetivo ou psicométrico).
As pranchas originais são aprovadas para uso em avaliações psicológicas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Sua aplicação é restrita a profissionais formados em psicologia.
Villemor-Amaral explica que a segurança de um diagnóstico psiquiátrico exige a utilização de múltiplas formas de investigação: “Existem alguns funcionamentos mais típicos de uma patologia do que de outra, mas é preferencial que se use diferentes formas de investigação para ter mais segurança de um diagnóstico psiquiátrico”.
Desvio da proposta original
Importa considerar que a intenção original do Teste de Rorschach não consistia em avaliar a personalidade. Seu criador, Hermann Rorschach, gostava, quando criança, de jogo chamado Klecksografia, apelidado por fãs de Kleck. A proposta era colecionar cartões com manchas de tinta que podiam ser comprados no comércio local.
Mais tarde, Rorschach estudou psiquiatria. Durante os estudos, notou que pacientes diagnosticados com esquizofrenia faziam associações a partir das manchas de Klecksografia, diferentes das pessoas normais. Então ele percebeu que as manchas do jogo podiam se tornar uma ferramenta que servisse de diagnóstico para a esquizofrenia. Nascia o teste que, a partir de 1939, seria usado como um teste projetivo de personalidade. A despeito de seu inventor.
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