O que a ciência comportamental tem a dizer sobre a democracia?
Estudos sugerem que a exposição a riscos pode ser explicada por nossas experiências anteriores – ou pela ausência delas.
Quais seriam as razões – além, é claro, da precariedade econômica – que levariam tanta gente a construir suas casas em regiões com risco de inundação ou deslizamento, apesar dos avisos das autoridades, ou a ignorar os sinais de atividade vulcânica, como as 700 mil pessoas que moram aos pés do Vulcão Vesúvio?
Nas últimas décadas, cientistas comportamentais vêm estudando como as ações humanas são motivadas pelas experiências. A dor, o prazer, as recompensas, as perdas e o conhecimento que surgem em decorrência da vivência dos eventos nos ajudam a avaliar nossas ações passadas e basear nossas ações futuras.
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O poder da experiência pessoal
Se a última erupção do Vesúvio aconteceu pela última vez em 1944, por que se preocupar? A maioria das pessoas tem a impressão de que “tá tudo certo”, e certos eventos não ocorrerão mais.
Inúmeros experimentos psicológicos já demonstraram que nossa experiência pessoal costuma subestimar a probabilidade e o impacto de eventos raros pela simples razão de que são… raros.
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E o que a democracia tem a ver com isso?
Essa sensação de tranquilidade dos moradores ao redor de um vulcão é a mesma que a Europa Ocidental vivencia há mais de 70 anos com relação à democracia e à prosperidade econômica. Justamente por terem sido poupados da experiência de tomadas de poder autocráticas, europeus ocidentais tendem a subestimar o risco de um novo colapso democrático.
Ou seja, de acordo com algumas pesquisas em ciência comportamental, o sucesso dos sistemas democráticos pode plantar as sementes de sua potencial ruína.
Para Ralph Hertwig, Diretor do Centro de Estudos de Racionalidade Adaptativa do Instituto Max Planck, e Stephan Lewandowsky, professor titular de Psicologia Cognitiva da Universidade de Bristol, “é improvável que a população perceba um risco à democracia quando um líder político rompe com uma convenção”.
Como a história nos mostra, nem todas as democracias entram em combustão de repente. Elas tendem a morrer lentamente, uma facada de cada vez, até que um ponto vital seja atingido.
Segundo os autores da tese, “se os primeiros sinais do comportamento antidemocrático não forem punidos quando repetidas violações das normas são toleradas, quando o número de transgressões retóricas aumenta e quando uma enxurrada de alegações manipuladoras se torna “normal”, as consequências nas urnas podem ser drásticas”.
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