O poeta Paulo Henriques Britto não morre mais
Autor de livros de poesia e prosa, é também um dos mais respeitados tradutores do país, além de professor universitário
O poeta, tradutor e professor Paulo Henriques Britto, de 73 anos, foi eleito nesta quinta-feira, 22,para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ocupará a cadeira de número 30, que estava vaga desde o falecimento da crítica literária Heloisa Teixeira.
Britto garantiu sua eleição recebendo 22 votos dos acadêmicos. O poeta e tradutor era considerado o favorito na disputa. Ele superou outros candidatos, incluindo Salgado Maranhão, que ficou em segundo lugar com dez votos.
Quem é Paulo Henriques Britto?
Considerado um dos mais importantes poetas brasileiros, Paulo Henriques Britto é também professor na PUC-Rio, onde se dedica a pesquisas nas áreas de tradução de poesia e poesia brasileira contemporânea. Autor de 14 livros, abrangendo poesia, contos, ensaios e literatura infantojuvenil, parte de sua obra poética já foi traduzida e publicada no exterior.
Entre os de poesia, Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar claro (1997), Macau (2003), Tarde (2007), Formas do nada (2012), Nenhum mistério (2017) e Fim de verão (2022).
Britto é ainda reconhecido como um dos principais tradutores do Brasil, tendo vertido para o português aproximadamente 120 obras de autores como Virginia Woolf, Henry James e Elizabeth Bishop. Ele também realiza o caminho inverso, traduzindo autores brasileiros para o inglês.
Ao comentar sua eleição, Britto expressou gratidão pelo apoio recebido e manifestou o desejo de colaborar com a renovação na ABL, planejando “dar aulas, promover encontros e levar um pouco dos resultados das [suas] pesquisas sobre poesia”.
A próxima eleição na ABL para a cadeira deixada por Marcos Vilaça está agendada para a próxima quinta-feira.
Algumas recomendações literárias de Britto
Em entrevista à revista Cândido, Paulo Henriques Britto cita algumas de suas influências literárias, sejam na prosa, sejam na poesia:
“Em poesia, as leituras que me marcaram mais foram, em primeiro lugar, Shakespeare, Whitman e Dickinson — comecei a ler poesia quando morava nos EUA, por volta dos onze anos; depois, quando voltei para o Brasil, descobri Pessoa, o poeta que mais li, reli e tresli na minha vida, e pouco depois os modernistas brasileiros clássicos: Bandeira, Drummond, Vinicius, e um pouco mais tarde Cabral, mais ou menos na mesma época em que descobri Wallace Stevens. Acho que esses foram os fundamentais em poesia. Na prosa, comecei com Monteiro Lobato; depois, já morando no exterior, descobri os românticos americanos — Washington Irving e Nathaniel Hawthorne, principalmente; deles passei para Mark Twain; só depois dos vinte anos é que li o único deles que ainda leio e releio hoje, Melville. No Brasil, descobri meio que simultaneamente Machado de Assis e Kafka, este último a minha maior paixão no campo da ficção, juntamente com Clarice Lispector, Graciliano Ramos, James Joyce — por fim, Marcel Proust, Witold Gombrowicz, Campos de Carvalho e Julio Cortázar, mais ou menos na época em que descobri Stevens e Cabral, já no final do meu período de formação. Se é que o período de formação termina algum dia.”
Conheça alguns poemas do novo imortal da ABL
Insônia (1987)
Na noite imperturbável,
infinitamente leve
a consciência se esbate,
espécie de semente
sobre um campo de neve
neve macia e negra
intensamente morna
onde o tempo se esquece
na inércia indiferente
das coisas que só dormem
onde, alheia ao mistério
de tudo ser evidente,
inteiramente encerrada
dentro do espaço exíguo
que é dado a uma semente
inútil como fruta
que não foi descascada
e apodreceu no pé,
jaz a semente aguda
profundamente acordada.
Biodiversidade (2003)
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
Ontologia sumaríssima (1989)
Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.
A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.
A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.
A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.
A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.
Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.
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