O discurso de ódio nas redes veio para ficar?
Pesquisadores continuam a se perguntar: “Como podemos acabar com o ‘hate speech’?
Para os mais jovens, nascidos depois dos anos 2000, é difícil de acreditar, mas há não muito tempo vivíamos muito bem sem redes sociais e, principalmente, sem ter de lidar com o discurso de ódio nas redes sociais.
Não, o mundo não era muito melhor do que é. Tínhamos os mesmos problemas. Debates agressivos aconteciam, manipulação narrativa também, a imprensa errava, os governos mentiam. Mas é provável que, em comparação, o alcance e a escala desses erros, mentiras e agressões fossem consideravelmente menores ou mais delimitados.
O ódio é a moeda de troca das redes sociais?
Com a popularização das plataformas, mídias e redes, o aumento exponencial do número de usuários, o relaxamento das políticas empresariais de controle e identificação, a dificuldade dos governos para lidar com um fenômeno sociocultural tão novo e, por fim, a transformação de tudo – mas principalmente do engajamento – em metas algorítmicas, o “hate speech” e todas as suas variações passou a fazer parte da paisagem.
Do ponto de vista comercial, tanto faz se o que é visualizado, compartilhado ou consumido é moralmente bom ou ruim. O que importa é o valor numérico disso. Infelizmente, o discurso de ódio engaja muito mais – e, por isso, dá muito mais retorno – que os discursos amenos, civilizados, positivos.
O anonimato, que é também garantia para exercício da liberdade de expressão, já foi aproveitado por cidadãos que vivem em países autoritários, mas tem seus efeitos colaterais: de um lado, protege e garante a segurança; de outro, invisibiliza agressores e assediadores.
Punir agressores ou acolher agredidos?
O que fazer diante desse problema? Como proteger as pessoas, moderar a comunicação e punir perpetradores, sem com isso cercear a liberdade de expressão e colidir com valores éticos e direitos constitucionais?
Em suma, “podemos acabar com o discurso de ódio nas mídias sociais?”, pergunta Kara Manke, especialista em ciências da comunicação da Universidade de Berkeley. Como em tudo o que envolve ação humana, deliberação individual e dinâmicas sociais, depende.
Sijia Xiao, também pesquisadora de Berkeley, acredita mais na justiça restaurativa que propriamente na punição. Talvez desistir da ideia de acabar com o discurso de ódio, e apostar na possibilidade de acolher e recuperar suas potenciais vítimas.
No doutorado, ela estuda as necessidades dos sobreviventes e as ferramentas que poderiam ser desenvolvidas para atendê-los, e trabalha com a seguinte hipótese:
“Minha esperança é que possamos agrupar sobreviventes em uma espécie de comunidade, onde as pessoas tenham o direito de compartilhar suas experiências, validar umas às outras e se sentir inspiradas a agir para lidar com esse dano. (…) Também poderia ser usada como uma ferramenta para que moderadores de conteúdo, ou mesmo agressores, entendam o que sentem os sobreviventes. Se os perpetradores estiverem dispostos a ver as coisas do ponto de vista dos sobreviventes — a entender o impacto que causam nos outros – talvez possam mudar seu comportamento.”
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Comentários (3)
Diogo de Almeida Lima
16.04.2025 08:12Recentemente tenho entrado mais nas redes, os discurso de ódio daqueles que discordam de temas é excessivo, mas sinceramente...eu me divirto muito com isso.
Fabio B
16.04.2025 08:03Para viver num país como o nosso, cercado de corrupção, desigualdade e manipulação descarada, falta é ódio mesmo. Falta ódio contra os golpistas, traidores e aproveitadores, mas principalmente contra a passividade de um povo QI 80 que não só aceita ser explorado, como nem percebe. Um povo que se adapta ao absurdo, que chega a cultuar e defender seus próprios algozes como se fossem "heróis". E quem ousa alertar é tratado como inimigo, igual quando se avisa a um colega que está sendo corno. Não dá para ser da paz e viver num país desses, cercado de malandros e paquitas de político.
Alexandre Ataliba Do Couto Resende
16.04.2025 07:37Quando contextualiza, logo no início, citando que sempre houve discurso de ódio na imprensa, governos, políticos, é possível inferir que houve uma democratização do discurso de ódio e que isso é o que realmente está incomodando os antigos detentores desse monopólio, sempre utilizado para manipular as pessoas em geral? Alguém já teve a brilhante ideia de combater "discurso de ódio" (seja lá isso como é definido conforme quem fala) por discurso de amor? Um pouco de Mahatma Gandhi e satyagraha faria bem em trazer a mesa nessa conversa.