O 11º mandamento deveria ser: não julgareis um texto pelo título
Por que as pessoas não leem as notícias que compartilham?
Suspeitei desde o princípio!
Um estudo recente publicado na Nature Human Behavior traduz em números um comportamento preocupante entre usuários de redes sociais: três em cada quatro pessoas compartilham links de conteúdo político sem ler nada além do título.
A tendência é ainda maior quando a manchete reflete suas próprias crenças políticas, o que pode explicar por que até usuários considerados críticos e bem informados acabam disseminando conteúdos duvidosos. É o tal viés de confirmação agindo.
O “topa-tudo” por viralização
O estudo analisou mais de 35 milhões de postagens públicas no Facebook com links compartilhados entre 2017 e 2020, e descobriu que esse tipo de compartilhamento sem cliques (ou seja, sem curtidas nem comentários) representa cerca de 75% dos links encaminhados, sendo que conteúdos políticos extremos e alinhados às crenças dos usuários foram os mais compartilhados.
O resultado, na prática, é que o compartilhamento de manchetes sensacionalistas e, muitas vezes, distorcidas, contribui para a disseminação involuntária de desinformação, especialmente quando o conteúdo compartilhado não é lido na íntegra.
Essa dinâmica preocupa os especialistas da Associação Americana de Psicologia, que alertam para os impactos da desinformação na saúde pública e na coesão social.
Confiança cega no post alheio
Como os títulos são frequentemente elaborados para atrair cliques e não para informar, os usuários acabam propagando ideias que muitas vezes nem representam suas próprias opiniões.
A confiança nos amigos que compartilham essas postagens pode amplificar ainda mais a percepção equivocada acerca do conteúdo (não lido).
Existe também uma outra questão.
Se, por um lado, alguns títulos são deliberadamente sensacionalistas, e por isso atraem leitores que, antes mesmo de ler, passam adiante aquela informação (ou opinião), por outro lado, alguns títulos são irônicos, ou um pouco menos diretos, e também atraem leitores que compartilham a informação (ou opinião) sem nem mesmo ter lido o conteúdo.
Faço um mea culpa: gosto de brincar com alguns títulos e peço aos leitores um pouquinho de boa vontade antes de concordar ou discordar. Compreendo que, no papel de emissor da informação, preciso tomar cuidado. Mas também sei que os receptores da informação – vocês aí, leitores! – precisariam entender que compartilhar qualquer coisa, sem clicar no link e ler o texto, não é a opção mais razoável.
Concordar, discordar, tudo é do jogo. Desde que se saiba em relação a quê se está concordando ou discordando. A recomendação mais simples continua sendo a mais eficaz: antes de compartilhar é preciso ler.
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