No Laos, nem os monges aguentam os influenciadores
Caçadores de likes desorganizam cultural local e rotinas religiosas; monges tentam conciliar o turismo ao senso de propósito
Luang Prabang, o epicentro da espiritualidade no Laos e reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, enfrenta uma das pestes mais mortíferas e de difícil combate nos últimos anos: o enxame sazonal de influenciadores digitais.
A cidade, venerada por sua herança budista e expressiva população de monges, experimenta um aumento acentuado de visitantes desde a inauguração da ferrovia de alta velocidade Laos-China, em 2021.
O que parece bom é ruim: essa crescente popularidade, embora traga desenvolvimento, tem afetado profundamente as antigas tradições locais, transformando rituais sagrados em espetáculos comercializados.
A localidade, que tem cerca de 50 mil habitantes, é o lar de aproximadamente mil monges e 33 monastérios suntuosamente decorados, alguns datando dos séculos XVI e XIX.
Segundo Simon Urwin, da BBC Travel, a vida diária em Luang Prabang é intrinsecamente ligada à prática budista, com a visita a templos (wats), a realização de atos devocionais (pujas) e a oferta de esmolas sendo fundamentais para a população.
No entanto, a chegada massiva de turistas, incluindo influenciadores digitais, gerou um paradoxo. E paradoxo é um jeito educado de dizer o que foi gerado.
Desafios à espiritualidade local
A transformação digital (sempre ela) alterou a percepção de Luang Prabang. Anat Khamphew, ex-monge do monastério Wat Xieng Mouane, comenta que muitos visitantes se comportam de maneira desrespeitosa (não brinca!) em relação aos monges, usando estátuas históricas de Buda como cenários para selfies (o quêêê?!) e fazendo “listas de popularidade digital” em vez de uma experiência autêntica (aqui eu quase ri, mas me segurei). Para Khamphew, isso faz com que se perca a essência da cidade, degradando o que se busca valorizar.
Um dos rituais mais impactados é o Tak Bat, uma solene cerimônia matinal de esmolas, praticada há mais de 600 anos. Monges descalços percorrem as ruas ao amanhecer para receber oferendas da comunidade. Apesar de existirem placas orientando o comportamento adequado, elas são frequentemente ignoradas.
Parn Thongparn, ex-monja e guia turística, fica triste diante do desrespeito, preferindo guiar seus clientes para experiências mais tranquilas. A qualidade das esmolas também é uma preocupação; Linda Heu, cozinheira do monastério Wat Munna, salienta que os alimentos devem ser frescos, puros e vegetarianos, e a oferta, um gesto de relevância, não mais uma chance de tirar fotografias.
Os monges contra-atacam
Em resposta a essa erosão cultural, ex-monges de Luang Prabang iniciaram um movimento para preservar a alma espiritual da cidade. Anat Khamphew criou um canal no YouTube (olha o xadrez4D dos monges aí…) para instruir os selvagens, minto, os viajantes, sobre como ter uma permanência mais positiva, afastando-os dos locais mais movimentados e realçando a importância das raízes budistas.
Outros ex-monges fundaram agências de turismo, como a Orange Robe Tours e a Spirit of Laos, com o objetivo de promover uma compreensão mais aprofundada dos costumes e da cultura budista tradicional. Essas iniciativas se estendem para além do turismo; um ex-colega de Khamphew, por exemplo, criou a loja de artesanato LaLaLaos para ajudar jovens rurais a cursarem o ensino médio, enquanto outro fundou o restaurante vocacional Kaiphaen, que treina jovens marginalizados.
Bounthan Sengsavang, ex-noviço e fundador da Spirit of Laos, em 2024, explica a filosofia. Ele defende que a melhor orientação deve vir de quem viveu a experiência monástica. Em vez de roteiros apressados, Sengsavang foca em tempo de qualidade em poucos templos, detalhando a existência despojada dos monges, sua dedicação à meditação e sua dependência das esmolas como práticas de humildade e gratidão.
Contando mais com a sorte que com o juízo, ele também oferece sessões de oração e meditação com os monges, destacando os benefícios para a mente e a oportunidade de interação cultural. Os tours de Sengsavang podem até incluir a observação de cremações budistas, visando a uma reflexão sobre a efemeridade da vida e a busca por propósito. Efemeridade? Propósito? Isso não é muito instagramável, mas vale a tentativa.
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Comentários (1)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
22.07.2025 19:30No Nordeste brasileiro a massificação da cultura e o olho na renda proporcionada pelo turismo acabou com as tradicionais "quadrilhas juninas". Estas que se apresentam e ganham concursos são caricaturas mal feitas das festividades juninas. É triste.