Mudar é preciso? Cinco filósofos que rejeitaram as próprias ideias
As reviravoltas que redefiniram o pensamento ocidental, de Agostinho a Wittgenstein, e desafiaram a cultura de obstinação na academia
Filósofos não gostam de mudar de opinião sobre questões fundamentais (ou mesmo pouco fundamentais). Primeiro, porque não consideram que suas posições sejam “opiniões”: seriam hipóteses ou teses demoradamente elaboradas. Segundo, porque, apesar de filósofos, eles são gente como a gente. Têm vaidade, carreira, comprometimentos.
Na história da filosofia, existem poucos exemplos de pensadores que revisaram abertamente suas principais teses. Menos, os que revisaram e abandonaram. Menos ainda os que revisaram, abandonaram e se voltaram contra suas próprias ideias. Não importa quem sejam eles, quais ideias rejeitaram e quais outras ideias assumiram, devem ser louvados – pelo menos um pouquinho – pela atitude. Que deveria ser normal a quem se dedica à filosofia, mas não é.
O filósofo britânico – também romancista – Will Buckingham diz que, se o diálogo raciocinado funcionasse como esperado, os pensadores mudariam de ideia o tempo todo. No entanto, no vaidoso meio intelectual, principalmente acadêmico, o que mais se vê é obstinação. Filósofo morrendo abraçado às suas ideias. Por que isso?
Uma das razões possíveis é que o esforço despendido na construção dos argumentos não é pequeno. Pensar direito dá trabalho. Às vezes, você tem uma grande sacada e passa o resto da vida tentando provar seu ponto. Mestrado, doutorado, estudos de pós-doutorado. Artigos, colóquios, livros, aparições na televisão, posts em mídias sociais. Não é fácil, depois de tudo, depois de tanto, convocar seu público para dizer:
“Errei.”
“Mudei de ideia.”
“Esqueçam o que escrevi.” (Como disse, teria dito ou não disse Fernando Henrique Cardoso)
Nem todo mundo prefere ser essa metamorfose ambulante
Raul Seixas que nos desculpe, mas a reputação de um pensador muitas vezes depende da fidelidade a uma teoria. A cultura filosófica tende a louvar a adesão constante a uma tese como um sinal de força e consistência. Em uma era voltada para a certeza, a reversão de uma posição pode ser rotulada como fragilidade; até mesmo uma forma de traição. Afinal de contas, teses ou ideias publicadas ou publicamente defendidas atraem admiradores. O pensador orienta alunos. Debate com colegas.
O psicólogo Peter C. Hill observa que, embora muitos considerem as reviravoltas como inconstância, o simples ato de dizer “Eu estava errado” deveria indicar força, modéstia e abertura. Em uma disciplina que depende da argumentação incessante, a aptidão para alterar o curso das conclusões à luz de um raciocínio mais robusto – ou depois de um debate – deveria ser vista como obrigação de todo filósofo que se preze. Deveria, mas não é.
Mas temos exemplos. Algumas figuras trataram a autocrítica como uma virtude. Hilary Putnam, influente filósofo do século XX, defendia a autorrevisão como termômetro de honestidade intelectual. Em 1988, na introdução de seu livro Representação e Realidade, renegou o funcionalism o, o modelo computacional da mente que ele próprio havia defendido. Putnam questionou por que colegas tratavam essa atitude como defeito, e sugeriu que talvez “outros filósofos não mudam de ideia porque nunca cometem erros”. Para ele, a intransigência era mais prejudicial do que a correção.
As fontes históricas já demonstram o alto custo social dessas rupturas. Na Antiguidade, Timócrates de Lâmpsaco se afastou de Epicuro, seu mentor, e foi atacado em uma polêmica. Dionísio de Heracleia abandonou o estoicismo para buscar os prazeres dos cirenaicos e foi tratado como traidor por seus antigos aliados.
Cinco exemplos de que é possível mudar de ideia
Peço que o leitor não se importe com as ideias defendidas ou abandonas, nem de quem as defendeu ou abandonou. A questão aqui não é se este defendia ideias consideradas “boas” ou “certas” e depois o contrário, ou vice-versa. O que importa, no caso, é que foram capazes de mudar. São eles: Agostinho, Kant, Marx, Wittgenstein e Simone Weil. Não é que mudaram de ideia ou fizeram uma correçãozinha de rota.
Agostinho de Hipona (354-430) mudou pelo menos duas vezes. Por nove anos, aderiu ao maniqueísmo, uma religião persa que via o universo em uma luta eterna entre a Luz e a Escuridão. Sob essa perspectiva, o livre-arbítrio era limitado, e o pecado podia ser atribuído às forças obscuras que habitavam o corpo.
Na meia-idade, Agostinho questionou a cosmologia maniqueísta e passou a procurar outra base filosófica, considerando o ceticismo, o neoplatonismo e a doutrina cristã. Após uma crise, converteu-se ao cristianismo, abandonando sua carreira e um casamento arranjado. No início de sua jornada cristã, para refutar o fatalismo maniqueu, ele defendeu a liberdade humana, afirmando que o mal decorre do mau uso da escolha.
Mas depois mudou de novo. Continuou cristão, mas sua posição sobre o livre-arbítrio não era mais a mesma. Alarmado pela tese do monge britânico Pelágio, que pregava que a salvação podia ser alcançada apenas por esforço moral, Agostinho endureceu sua doutrina sobre a graça. Passou a insistir que nós não somos capazes de praticar o bem sem o dom de Deus. Sua convicção foi resumida na oração: “Dá o que Tu ordenas, e ordena o que quiseres”.
Immanuel Kant marcou o pensamento ocidental com sua ruptura em relação à metafísica racionalista de sua juventude. Ele dividiu sua carreira entre os anos pré-críticos, antes de 1770, e o período crítico, iniciado em 1781. O pensador estava inicialmente convencido de que a razão poderia demonstrar a existência de Deus e a imortalidade da alma.
A reviravolta de Kant começou após sua leitura do cético escocês David Hume. Hume despertou Kant de seu “sono dogmático”; sua crença no poder ilimitado da razão desapareceu. Kant percebeu que aceitava pressupostos sem questionamento e encarou a possibilidade de que grande parte da metafísica fosse, em sua expressão, “sofismas e ilusão”.
O choque foi intenso. Kant deixou de publicar por mais de dez anos e se pôs a refletir quieto. Em 1781, publicou a Crítica da Razão Pura, que ele próprio comparou a uma “revolução copernicana”. Ele mudou o foco do conhecimento do mundo (como objeto) para a mente que conhece (como sujeito). O jovem Kant, que respondia a questões metafísicas com facilidade, deu lugar ao pensador que dizia que muitas dessas perguntas eram irrespondíveis.
Karl Marx (1818-1883) também vivenciou uma transição com força revolucionária, passando do idealismo juvenil para o materialismo rigoroso. O jovem Marx, influenciado pelo humanismo, focava na ideia de “alienação” e no sonho de realização humana. Ele via o comunismo como o reencontro com a essência humana. Dois eventos fizeram com que Marx mudasse de ideia.
Primeiro, o jornalismo o colocou em contato com uma realidade social sem teorias. Isso o afastou da “política pura” – principiológica – em direção à economia. O jornalismo fez com que Marx ficasse “na posição embaraçosa de ter que discutir o que é conhecido como interesses materiais”, segundo o próprio recordaria mais tarde.
O segundo fator foi a influência intelectual de seus contemporâneos, como Ludwig Feuerbach e, sobretudo, Friedrich Engels. Marx deixou de lado o humanismo para redefinir os seres humanos como produtos das condições sociais e de classe. Ele e Engels disseram que precisavam “acertar as contas com nossa antiga consciência filosófica”. O Marx maduro, n’O Capital, via a história avançando por conflitos de classe e forças materiais, não por motivos e aspirações filosóficos ou culturais.
Ludwig Wittgenstein é o suspeito de sempre, quando se trata de exemplos de cavalo-de-pau filosófico. Em 1921, publicou o Tractatus Logico-Philosophicus, que postulava (simplificando muito) que o mundo é formado por fatos espelhados em proposições lógicas. A obra terminava com a máxima: “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”. Certo de ter resolvido todos os mistérios, Wittgenstein abandonou a filosofia.
Dúvidas minaram suas certezas. Em 1923, o matemático Frank Ramsey apontou que o Tractatus não conseguia explicar por que “um ponto no campo visual não pode ser simultaneamente vermelho e azul”. O ponto crítico não era lógico, mas sobre a própria tessitura da realidade.
O golpe decisivo veio em conversas com o economista italiano Piero Sraffa. Em um episódio conhecido, Sraffa roçou o queixo em um gesto de desinteresse napolitano e perguntou: “Que forma lógica isso tem?”. Wittgenstein percebeu que a linguagem é tecida em práticas e hábitos, e o significado está no uso que fazemos dela.
Invocado, voltou a Cambridge para confrontar seus – assim ele disse – “graves erros”. O resultado se transformou nas Investigações Filosóficas (1953), livro que contradiz o irmão mais velho, o Tractatus. O esforço para construir uma linguagem lógica perfeita, alertou Wittgenstein, conduz os pensadores à ilusão. Ele comparou seu primeiro trabalho a um “relógio defeituoso”.
Simone Weil (1909-1943) também é um retrato de abandono de certezas. Inicialmente, ela era uma acadêmica brilhante e radical marxista. Se dispôs a trabalhar em fábricas (sem precisar) e defendia o socialismo revolucionário como caminho para a justiça.
Até que repensou seus compromentimentos marxistas no final dos anos 1930. Weil questionou a fé de Marx nas “leis da história” e a promessa da vitória inevitável do proletariado. Ela passou a considerar a realidade como trágica e a notar sementes de tirania nos movimentos comunistas.
A ruptura ocorreu em 1938, quando uma experiência mística durante uma audição de canto gregoriano preencheu seu coração de uma alegria que parecia divina. Após ouvir a poesia de George Herbert, ela relatou que “o próprio Cristo desceu e tomou posse de mim”. A convicta materialista apaixonou-se pelo divino, reorientando seu foco. A revolução política a que almejava deu lugar à necessidade de uma revolução da alma, operada pela Graça.
Não são muitos, mas os exemplos acima demonstram que o pensamento não é uma estrutura finalizada, mas sim uma obra sempre em construção. O pensamento crítico, quando de fato crítico, pressupõe a interrogação das próprias premissas e a abertura para o aprendizado contínuo. A maior força intelectual de um filósofo é preferir a verdade às suas próprias ideias. Que nem sempre são verdadeiras.
O artigo original, no qual se baseia esta versão, pode ser lido no site Big Think.
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