Morre Edgar Morin, o filósofo do “pensamento complexo”
Sociólogo francês construiu, ao longo de décadas, iniciativas que buscaram romper as fronteiras entre as disciplinas científicas
O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin morreu nesta sexta feira, aos 104 anos. Morin dedicou sua trajetória intelectual à criação de espaços institucionais que dessem suporte a uma visão integrada e complexa do saber.
Em 1962, com Georges Friedmann e Roland Barthes, fundou na École des hautes études en sciences sociales (EHESS) o Centro de Estudos de Comunicação de Massa — iniciativa concebida com o propósito declarado de tratar o tema sob uma perspectiva transdisciplinar.
Do mesmo projeto nasceu a revista Communications, publicação que se tornaria referência nos estudos da área.
Antes mesmo da fundação do centro na EHESS, Morin já havia dado sinais de seu interesse por formatos de debate que escapassem às fronteiras acadêmicas convencionais. Em 1957, lançou a revista Arguments, que circulou até 1963 e reuniu intelectuais dispostos a questionar os paradigmas dominantes de então.
A educação e o pensamento complexo
No campo da educação, as propostas de Morin se traduziram em um modelo de formação orientado para o que ele chamou de “cidadania planetária”.
Avesso aos recortes epistemológicos mais institucionais que científicos, defendia um ensino voltado à compreensão humana, à preparação para lidar com incertezas e ao reconhecimento do afeto e das diferenças como elementos constitutivos da vida em sociedade.
A crítica central de Morin se dirige à fragmentação do conhecimento científico em áreas estanques. Para ele, fenômenos da vida, da natureza e da sociedade não podem ser compreendidos de forma isolada — estão, por definição, interligados. Essa posição levou o pensador a questionar o modelo tradicional de divisão das ciências, que ele descrevia como uma organização em “caixinhas” sem comunicação entre si.
Autor prolífico, publicou dezenas de livros de ensaios, artigos, entrevistas. Sua obra máxima, dividida em 6 volumes, é intitulada O Método, e abrange história e epistemologia, ética e biologia, ciências humanas e físicas, respondendo à obsessão intelectual do autor: reconectar os saberes entre si e os saberes à vida, da natureza à sociedade.
Politicamente de esquerda, crítico do autoritarismo, foi um ferrenho opositor do estalinismo que seduzia pensadores europeus (e até hoje seduz subpensadores brasileiros…). Aliás, Morin visitou o Brasil várias vezes.
“Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia”, publicou Nelson Vallejo Gomez, amigo e secretário do filósofo.
“Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado”.
Edgar Morin faria 105 anos em julho. Se estivesse vivo, provavelmente publicaria outro livro.
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Comentários (1)
O pensamento de Morin é muito interessante, mas impossível de se colocar na realidade, pelo menos até hoje.