Ler ficção melhora funções cerebrais e expande ‘imaginação moral’
Estudos indicam que narrativas literárias expandem a capacidade de compreensão do pensamento alheio e ajudam até na manutenção da saúde mental
Logo na primeira aula do curso de Literatura 311, em setembro de 1953, o escritor russo Vladimir Nabokov, autor de Lolita, pediu que seus alunos americanos explicassem por escrito o motivo de terem se inscrito. Entre tantas respostas pretensiosas e rebuscadas, uma chamou a atenção de Nabokov. Na aula do dia seguinte, anunciou, satisfeito, o que um dos alunos havia respondido: “Porque gosto de histórias”.
Pesquisadores da Maximilian University of Würzburg, na Alemanha, defendem que a leitura de obras ficcionais – romances, contos, fábulas, peças, poemas – tende a aumentar a empatia e, principalmente, a capacidade de compreender as ideias de terceiros. O levantamento demonstra ainda que o texto escrito oferece vantagens às histórias visualizadas em telas. A atividade age no fortalecimento de competências verbais e lógicas do indivíduo.
De acordo com uma pesquisa publicada na revista Science, o gênero ficcional amplia a percepção sobre estados mentais diversos. O exercício permite que o leitor reconheça a existência de valores e convicções distintos dos próprios. Esse processo de identificação com o outro ocorre por meio da imersão em trajetórias de vida diferentes do cotidiano.
A leitura dos grandes textos expande a chamada “imaginação moral”, ou seja, a capacidade de compreender e, até certo ponto, experimentar, os desafios éticos, culturais e políticos do nosso tempo e de outros tempos, tomando personagens e autores como modelos exemplares de condutas e decisões – para o bem e para o mal.
O tradutor e escritor Caetano Galindo falou sobre a força das narrativas durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip): “Temos o luxo de frequentar esse espaço em que a gente só quer segurar a mão de pessoas que não existem ou conversar com alguém que pode ter morrido há séculos, e isso é absurdamente poderoso”.
Processos cognitivos e saúde mental
Diferente de meios audiovisuais, a literatura demanda ação do leitor para a construção de cenários. Esse esforço intelectual atua na memória e na atenção. A interpretação de tramas exige o acompanhamento de personagens com características variadas e universos imaginários.
O contato com dilemas morais contidos nas histórias estimula o pensamento analítico. Ao examinar conflitos e motivações, o leitor desenvolve mecanismos para interpretar a realidade com nuances e complexidades.
O envolvimento com a trama reduz níveis de ansiedade e promove equilíbrio emocional. Cientistas associam a atividade à longevidade das funções intelectuais. O hábito de ler mantém o cérebro em atividade, o que pode retardar a perda de capacidades com o envelhecimento.
A ficção fornece instrumentos para a compreensão de estruturas culturais e relações entre indivíduos na sociedade. O hábito transforma a percepção sobre o ambiente externo e sobre o próprio leitor. Histórias escritas funcionam como porta de entrada para a manutenção do hábito de leitura.
O cenário da leitura no Brasil
Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil indicam uma queda no volume de livros consumidos pela população. A média de obras lidas por habitante passou de 4,95, no ano de 2019, para 3,96 em 2024. O levantamento ocorre em intervalos de cinco anos.
Apenas 47% das pessoas com idade superior a cinco anos leram literatura nos três meses anteriores à coleta de dados. Entre os entrevistados, 46% apontaram a escassez de tempo como o motivo para o afastamento dos livros. A falta de foco também prejudica o hábito.
O uso de dispositivos móveis e o volume de informações digitais dificultam a concentração em tarefas únicas. Telas de celulares competem com o tempo que seria dedicado às páginas. A ficção surge como alternativa para a retomada dessa prática pelo interesse na narrativa.
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