Inteligência Artificial acelera decodificação de um dos textos mais antigos do mundo
O conhecimento de uma epopeia mais antiga que a Bíblia pode ser facilitado com novas ferramentas de pesquisa
Um projeto inovador, que utiliza ferramentas de aprendizado de máquina, está prestes a decifrar um dos textos mais antigos do mundo, o Épico de Gilgamesh, escrito em placas de argila há quase quatro mil anos.
Diante do desafio de milhares de fragmentos e da escassez de especialistas, a inteligência artificial está possibilitando “encaixar” digitalmente as peças, revelando passagens inéditas e acelerando a pesquisa que perdura há mais de um século e meio.
Liderado pelo professor Enrique Jiménez da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, com base na Universidade de Friburgo, o projeto Fragmentarium emprega machine learning para superar uma das principais barreiras na reconstrução do Épico de Gilgamesh: o fato de que o texto foi encontrado em aproximadamente 15 mil fragmentos na antiga Biblioteca de Assurbanipal, em Nínive.
Embora descobertos por volta de 1850, a montagem completa do épico ainda não foi finalizada, pois os fragmentos acabaram em diferentes países. Além disso, a especialidade de Assiriologia, crucial para a leitura da escrita cuneiforme, é extremamente rara, limitando a capacidade humana de processar o vasto material disponível em coleções de museus internacionais, que somam cerca de meio milhão de placas de argila.
O Fragmentarium funciona como um grande quebra-cabeças digital, reconhecendo padrões e conectando as peças digitalizadas em uma velocidade inatingível por assiriologistas.
Novas luzes sobre a jornada de Gilgamesh
A aplicação da IA tem produzido resultados notáveis. Desde 2018, quando cerca de 5.000 fragmentos já haviam sido conectados, a equipe do Fragmentarium conseguiu “encaixar” mais de 1.500 peças adicionais. Essas conexões levaram à descoberta de trechos anteriormente desconhecidos, incluindo um novo hino à cidade da Babilônia e mais de 100 linhas do texto principal do épico.
As novas revelações aprofundam a compreensão da narrativa, mostrando, por exemplo, que após matarem o monstro Humbaba, Gilgamesh e seu companheiro Enquidu viajaram para Nipur na tentativa de aplacar a fúria do deus Enlil.
O professor Benjamin R. Foster, da Universidade de Yale, que participa do projeto, destacou a descoberta de um trecho onde Enquidu tenta dissuadir Gilgamesh de matar Humbaba. Outra descoberta interessante mencionada por Enrique Jiménez é o uso de uma palavra até então desconhecida (“esbanjar”) por Utnapistim, o sobrevivente da enchente que Gilgamesh busca.
Esses achados estão sendo incorporados em novas edições do Épico de Gilgamesh. Com a análise do acervo do Museu Britânico concluída pela inteligência artificial, o projeto agora avança para uma nova fase, colaborando com o Museu do Iraque, em Bagdá, na busca por mais fragmentos perdidos. Cerca de 30% do épico ainda permanece desconhecido, mesmo após 170 anos de esforços, o que demonstra o potencial contínuo dessa tecnologia para decifrar um dos pilares da literatura mundial.
Edição brasileira disponível
Para conhecer o que já foi traduzido do Épico de Gilgamesh, existe uma excelente versão brasileira, repletada de notas explicativas, editada pela Autêntica, em tradução de Jacyntho Lins Brandão, professor titular de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Letras da UFMG.
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