Historiadores divergem sobre Lutero e o que realmente aconteceu em 31 de outubro de 1517
Especialistas afirmam que Lutero enviou cartas, mas não há prova de que tenha pregado o texto na igreja
A imagem de Martinho Lutero batendo um prego na porta da igreja do castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, é um dos símbolos mais fortes da Reforma Protestante. No entanto, historiadores afirmam que o gesto provavelmente nunca ocorreu.
De acordo com a historiadora Lyndal Roper, autora da biografia Martinho Lutero – Renegado e Profeta (Objetiva, 2020), não existe registro confiável do evento.
Lutero nunca mencionou ter pregado as teses. O único relato da cena surgiu décadas depois, escrito por Filipe Melâncton, que não estava em Wittenberg no dia do suposto evento.
O que está documentado é que, no mesmo 31 de outubro, Lutero enviou cartas ao arcebispo Albrecht de Mainz e ao bispo de Brandemburgo, denunciando a venda de indulgências e anexando suas 95 teses.
Pesquisadores lembram que, na época, era comum afixar teses em portas de igrejas para anunciar debates acadêmicos.
Assim, o gesto de pregar o texto não seria impossível. Mas, como observa Roper, não há prova de que isso tenha ocorrido com Lutero. A história do martelo teria sido criada mais tarde para marcar simbolicamente o início da Reforma.
O impacto das teses foi real.
O texto, traduzido e impresso, se espalhou rapidamente pela Alemanha e chegou a outros países da Europa. As ideias contra a venda de indulgências e o poder papal desencadearam uma crise que rachou o cristianismo e a política europeia.
A resposta católica às 95 teses de Martinho Lutero combinou correções práticas e reafirmações doutrinárias. A Igreja reconheceu que havia abusos na venda de indulgências e proibiu sua comercialização no Concílio de Trento (1545-1563).
Ao mesmo tempo, reafirmou pontos centrais de sua doutrina: a autoridade da Igreja para administrar os sacramentos, inclusive o perdão dos pecados; a necessidade da fé acompanhada de boas obras para a salvação; e a validade do purgatório como estado de purificação.
O Concílio de Trento também confirmou que a autoridade cristã se baseia na escritura e na tradição, interpretadas pelo magistério da Igreja.
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Comentários (1)
Daniela_RS
01.11.2025 14:09Uma das grandes falácias sobre as 95 teses de Lutero é que seriam, em parte, contrárias às indulgências. Lendo as 95 teses, descobri que isso não é verdade. Lutero considera, ao menos nas 95 teses, a doutrina das indulgências válida (e a Igreja Católica jamais renegou a doutrina das indulgências, até hoje). As discordâncias de Lutero versavam sobre aspectos da doutrina da justificação, incluindo aspectos da doutrina das indulgências. Em várias dessas teses, as discordâncias manifestadas eram heréticas, do ponto de vista católico. A pertinácia de Lutero nas heresias que manifestou foi o que levou, alguns anos mais tarde, à sua excomunhão.