Grife francesa aposta em imperfeição contra a inteligência artificial
Artista francesa Linda Merad assina nova identidade visual da Hermès, baseada em traços irregulares e texturas manuais
A grife francesa Hermès relançou seu site no início de 2026 com uma escolha deliberada: substituir o domínio fotográfico convencional por ilustrações feitas à mão. A responsável pelo projeto é a artista Linda Merad, convidada pela maison para desenvolver uma identidade visual construída sobre traços irregulares, texturas visíveis e cores intencionalmente imperfeitas — características que marcam a diferença entre a produção humana e as imagens geradas por algoritmos.
Cavalo-marinho como fio condutor
O ponto de partida conceitual do projeto foi o “ano do cavalo”, referência ao calendário do horóscopo chinês.
A partir daí, Merad desenvolveu uma narrativa visual subaquática: criaturas marinhas — com destaque para cavalos-marinhos — se entrelaçam a roupas e acessórios da marca, compondo o que pode ser descrito como uma fábula ilustrada. Em vez de páginas construídas em torno de fotografias de produto, ou de imagens de produto criadas por IA, os visitantes encontram desenhos que combinam elementos naturais com os objetos da coleção.
A aproximação entre a artista e a Hermès teve origem em uma convocatória aberta: a marca convidou seu público a enviar ilustrações que interpretassem a identidade da marca. Merad participou e, a partir desse contato, foi chamada para o projeto. Desde então, a empresa passou a publicar regularmente desenhos e animações de artistas independentes em seus canais digitais.
Contexto de mercado e reações do público
O movimento da Hermès pretende ser uma resposta ao generalizado uso de inteligência artificial generativa em campanhas publicitárias. Em 2025, a grife italiana Valentino adotou imagens produzidas por IA em suas campanhas, o que gerou reações céticas de parte do público. A estratégia da Hermès vai na contramão.
A escolha pela imperfeição não é acidental. Segundo a proposta do projeto, a irregularidade dos traços é o elemento central da linguagem visual — uma forma de tornar visível a presença humana por trás das imagens, em contraste com a uniformidade técnica característica das ferramentas de geração automática de conteúdo.
A decisão estética tem desdobramentos comerciais e simbólicos para uma marca cujo principal produto — as bolsas Birkin — é associado à produção manual e ao tempo de fabricação como atributos de valor.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)