Filósofo reage: totalitarismo é conceito sério, não “rótulo para adversários”
Escritor e professor contesta entrevista de Gabriel Feltran na Folha de S. Paulo e explica por que o termo exige rigor conceitual
Francisco Razzo, escritor, professor e mestre em filosofia, reagiu em postagem à entrevista de Gabriel Feltran publicada pela Folha de S. Paulo com o título: “Operação no Rio faz parte de projeto totalitário de extrema direita, diz pesquisador da violência”.
Razzo é autor do livro “A Imaginação Totalitária”, obra que está completando dez anos. Ele define o totalitarismo como “vício metafísico da razão”, uma tentação de reduzir o real a uma unidade perfeita, apagando a contingência e o conflito.
O filósofo escreve que sua investigação sempre teve caráter de autocrítica. Busca, nas palavras dele, “compreender o perigo interior da inteligência quando ela deseja domesticar o mistério da totalidade”.
Segundo Razzo, “o totalitário, antes de ser o ditador ou o fanático, é o espírito que toma a própria razão por absoluto”. Esse impulso pode contaminar política, moral, ciência e fé, quando a certeza substitui o diálogo.
Na entrevista à Folha, Feltran descreve um “movimento totalitário” que teria se consolidado nas periferias e nas instituições sob liderança da direita populista. Ele afirma: “Falta apenas controlar o STF para que seu projeto se consolide plenamente”, ao listar governos estaduais, Congresso e parte do Judiciário como espaços já ocupados.
Feltran também critica a celebração pública da violência. Para ele, “igualar-se aos torturadores do Comando Vermelho, com espadas e decapitações, não parece ser uma boa saída para a construção de um Estado civilizado”.
Ao avaliar a justificativa de “faxina” contra o crime, o pesquisador a chama de propaganda. “A narrativa de ‘faxina’ é pura propaganda totalitária”, afirma, ao apontar ganhos políticos e financeiros na militarização e na lógica de exceção.
Razzo questiona a definição conceitual. O professor argumenta que converter totalitarismo em fenômeno sociológico restrito à direita evangélica e militar “abandona o problema filosófico para adotar o tom de alerta político”.
Para explicar o risco, Razzo recorre ao cientista político Giovanni Sartori. Chama de concept stretching o erro de esticar um conceito até ele perder forma: “Quanto mais casos o termo abarca, menos ele explica”.
O termo “totalitarismo”, nesse caso, vira um mero atalho para um discurso ideológico.
Razzo escreve que a categoria se torna “guarda-chuva retórico” para o que se opõe à “sensibilidade progressista”, perdendo poder explicativo.
O filósofo separa dois planos da discussão. No primeiro, estão investigações e números sobre punitivismo, corrupção e fusão entre fé e violência, que podem ser debatidos com evidências e método.
No segundo, está o conceito filosófico que pede autocrítica e precisão.
“Quando ‘projeto totalitário’ passa a designar o outro ideológico, o pensamento abandona a autocrítica e se torna um tipo de pastoral”, diz, vendo aí a mesma tentação que denuncia.
Razzo sustenta que o totalitarismo é a “realização extrema” da razão moderna quando pretende ordenar tudo até o fim. Nessa leitura, “Feltran transforma [o conceito de totalitarismo] em ‘sociologia do medo’”.
Razzo pede que o leitor evite o rótulo automático. Seu foco é o exame interior do pensamento, inspirado por Hannah Arendt e Sócrates.
“Pensar é manter viva a conversa interior que impede a consciência de se acomodar no ‘conhecimento’”, sugere o professor ao defender que o combate à tentação totalizante começa no próprio ato de pensar.
Com “A imaginação totalitária”, Razzo propõe recolocar o conceito num terreno de rigor e autocrítica, anterior ao varejo político-partidário.
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Comentários (1)
Annie
04.11.2025 07:26Meio complexo, mas me pareceu que totalitarismo tá mais avançado e na esquerda.