Festival de Angoulême, o “Cannes dos Quadrinhos”, pode ser cancelado
Evento enfrenta boicote massivo e acusações que vão de má gestão financeira à violência sexual
O Festival de Quadrinhos de Angoulême, conhecido como o “Cannes do Gibi”, está em risco de não acontecer. A edição agendada para janeiro de 2026 pode ser cancelada em virtude de uma série de denúncias sobre a organização.
Mais de 2.500 artistas, associações e sindicatos ligados ao universo dos quadrinhos assinaram uma petição solicitando um boicote em massa ao evento. As polêmicas vão desde acusações de má administração financeira, feitas pela prefeitura de Angoulême, até questões sobre inclusão.
Profissionais do setor levantam um debate a respeito da invisibilidade das mulheres na programação do Festival. Além disso, pesa sobre o evento uma denúncia de violência sexual.
Acusações contra a 9e Art+ e histórico de críticas
A produtora 9e Art+, sediada no Sul da França, é a responsável pelo Festival desde 2008 e alvo das principais contestações. A empresa é acusada de falta de transparência, além de exploração de trabalhadores e de suprimir o trabalho feminino no segmento.
De acordo com o Estadão, movimento de protesto por mudanças profundas na estrutura do evento ganhou corpo. Vinte vencedores do Grand Prix do Festival firmaram uma carta aberta conjunta exigindo uma “mudança rápida e profunda na gestão do festival”.
Entre os artistas que aderiram à manifestação e ao pedido de boicote em massa estão três brasileiros: Laerte, Aline Zouvi e Allan Sieber.
As críticas relacionadas à gestão e à representatividade não surgem pela primeira vez. Em 2016, por exemplo, o Festival foi questionado duramente ao apresentar uma lista de 30 indicados ao prêmio. Naquela ocasião, todos os nomes listados eram masculinos.
Mais recentemente, em 2023, o Festival gerou nova rodada de críticas. A polêmica daquele ano se deu após o evento premiar uma obra de Bastien Vivès que retratava cenas de pornografia infantil.
Na edição anterior, a situação se tornou mais delicada: uma ex-funcionária acusou a empresa de demiti-la. O desligamento teria ocorrido após a colaboradora denunciar ter sido vítima de estupro envolvendo o uso de substâncias químicas.
Fundador da produtora é afastado
Em resposta à complexidade do cenário, Franck Bondoux, fundador da 9e Art+, foi afastado da administração do Festival. Em entrevista concedida ao jornal Le Monde, o empresário confirmou sua saída e a motivação do desligamento.
“Não quero ser um obstáculo para o futuro do Festival. Pediram-me para me afastar e é o que estou fazendo”, declarou Bondoux.
O Festival se posicionou no X, confirmando que está ciente das questões e em diálogo com representantes de diversas entidades. Os organizadores manifestaram a expectativa de que as discussões atuais permitam que a edição de 2026 seja realizada.
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