Estamos ficando burros? Entenda o ‘Efeito Flynn’ e seu reverso
Pontuação média em testes de QI deixou de aumentar; pesquisadores detectam declínio e levantam hipóteses
Um novo estudo, realizado por pesquisadores da Northwestern University, revelou um declínio notável nas pontuações de testes de QI nos Estados Unidos, entre os anos de 2006 e 2018.
A pesquisa, que analisou dados de um grande grupo de participantes, fornece base para o que os cientistas chamam de ‘Efeito Flynn Reverso’, um fenômeno observado globalmente, que sugere uma inversão na tendência histórica de aumento das pontuações de QI.
Apesar dos resultados, especialistas alertam que essa queda nas pontuações pode não significar necessariamente que os americanos (ou quaisquer grupos) estão se tornando menos inteligentes, mas sim refletir mudanças em habilidades de realização de testes ou até mesmo em valores sociais.
Uma análise dos dados
Segundo Tim McMillan, a pesquisa utilizou dados coletados por dois projetos, o Synthetic Aperture Personality Assessment Project e o International Cognitive Ability Resource, examinando as pontuações de habilidade de inteligência de uma amostra significativa de 394.378 americanos adultos.
Os resultados indicaram um declínio nas pontuações em três das quatro categorias-chave avaliadas: raciocínio verbal, raciocínio matricial e raciocínio sobre séries de letras e números. Pontuações de habilidade compostas, derivadas de múltiplos dados, também foram menores nas amostras mais recentes.
Curiosamente, a queda foi uniforme em todos os grupos da amostra, independentemente da idade, gênero ou nível educacional dos participantes. No entanto, houve uma exceção notável: as pontuações relacionadas ao raciocínio espacial, a capacidade de visualizar objetos 3D e tirar conclusões a partir de informações limitadas, aumentaram durante o mesmo período.
Os pesquisadores afirmam que esses resultados demonstram um padrão consistente com o Efeito Flynn Reverso, em grande parte das habilidades cognitivas avaliadas.
O que é o Efeito Flynn?
O Efeito Flynn Reverso é visto como o oposto do Efeito Flynn original, nomeado em homenagem ao pesquisador Dr. James Flynn.
O Efeito Flynn documentou um aumento constante nas pontuações de testes de inteligência na maior parte do mundo ao longo do século XX. A inversão, com pontuações de QI começando a declinar nos anos 1990 e 2000, já foi observada em estudos com populações da Noruega, Dinamarca, Austrália, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia, Finlândia e, agora, nos Estados Unidos. Assim como o Efeito Flynn, as causas exatas para o Efeito Flynn Reverso permanecem misteriosas.
Interpretações e possibilidades
Pesquisadores enfatizam que o declínio nos resultados dos testes não deve ser automaticamente interpretado como uma redução na capacidade mental inerente.
Dra. Elizabeth Dworak, principal autora do estudo da Northwestern, sugere que as pessoas podem estar simplesmente piorando na realização de testes ou, mais especificamente, nestes tipos particulares de testes. Ela aponta que o fato de uma das categorias (raciocínio espacial) ter aumentado sugere que a situação é complexa.
Por enquanto, as causas do Efeito Flynn Reverso são consideradas ambientais, não genéticas, rebatendo teorias pseudocientíficas. Diversas explicações ambientais foram propostas: aumento da poluição do ar, piora na nutrição e nos padrões de saúde, piora nos valores educacionais e nos sistemas escolares, e proliferação de sistemas de informação (TV, internet, mídias sociais), criando ambientes possivelmente menos estimulantes intelectualmente.
O próprio Dr. Flynn sugeriu que a queda nas pontuações entre adolescentes no Reino Unido poderia ser devido a uma “cultura jovem que ‘estagnou’ ou mesmo emburreceu”.
A Dra. Dworak levanta a possibilidade de que mudanças nos valores percebidos pela sociedade possam afetar as pontuações, talvez refletindo uma ênfase maior em áreas como STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) em detrimento de outras formas de raciocínio.
Outra perspectiva importante é a crítica à própria capacidade dos testes de QI de medir a inteligência necessária para o sucesso na era moderna. Pesquisadores como Dr. Wayne Weiten e Dr. Keith Stanovich argumentam que esses testes medem principalmente a habilidade necessária para o sucesso acadêmico, mas falham em avaliar amplamente a inteligência humana em suas diversas formas.
Dra. Dworak e sua equipe continuam a investigar o fenômeno, examinando agora um conjunto de dados com 40 anos de resultados de testes de QI para um estudo de acompanhamento.
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