Escritor francês compra livro assinado por ele — que ele nunca escreveu
Julien Blanc-Gras denuncia venda de obra atribuída a ele, vendida como se fosse dele, mas produzida por inteligência artificial
Em artigo publicado no jornal Le Monde, o escritor francês Julien Blanc-Gras disse ter encontrado, à venda na Amazon, um livro de viagem assinado com seu nome. No caso, um livro que ele nunca escreveu. Segundo o autor, a obra foi gerada por inteligência artificial e comercializada por 17,05 euros.
“Eu sou Julien Blanc-Gras. E, de fato, sou um escritor que viaja. O problema é que nunca escrevi esse livro”.
Livro descrito como “lixo” por 134 páginas
O título em questão, Guide complet d’aventure: le manuel de survie du voyageur moderne, apresentava Blanc-Gras como autor na própria página de venda da Amazon, descrito como um “autor aventureiro”. Curioso, o escritor decidiu comprar um exemplar — gesto que classificou como “masoquista”.
A leitura revelou um texto de 134 páginas cheio de neologismos sem sentido, “uma novilíngua de vendedor ambulante sob efeito de ayahuasca”.
O autor notou, com ironia, que cada página trazia o alerta “material protegido por direitos de autor”, mesmo se tratando de um texto que, segundo ele, violava seus próprios direitos de imagem e autoria.
Caso foi notificado à Amazon e a advogado
Blanc-Gras afirma ter alertado sua editora sobre o episódio, contratado um advogado para avaliar possíveis ações legais e formalizado uma denúncia à Amazon. Após o registro da queixa, o livro foi retirado da plataforma nos Estados Unidos.
Apesar da remoção, o autor constatou que a obra continua disponível em outros sites de venda, incluindo plataformas americanas, dinamarquesas e coreanas.
Na publicação, o escritor — conhecido por livros de viagem como Envoyé un peu spécial e Touriste — distingue seu caso de outras situações já recorrentes na internet, em que obras geradas por IA são atribuídas a autores inventados: “Eu não sou fictício. É genuinamente o meu nome que aparece na capa. Um limite foi ultrapassado: o roubo de identidade de um escritor”, escreveu.
Blanc-Gras relaciona o episódio a um debate mais amplo sobre o uso de obras de escritores para treinar sistemas de inteligência artificial sem consentimento ou remuneração, e cita iniciativas em curso no parlamento francês voltadas à proteção de direitos autorais diante desse tipo de tecnologia.
“Gigantes da tecnologia saqueiam nosso trabalho para alimentar seus modelos de IA, sem nosso consentimento e sem qualquer compensação. Uma IA que satura nossas telas e desestabiliza a realidade. Uma IA que, de agora em diante, pode se apropriar de nossas vozes, nossas imagens e nossos nomes para golpes patéticos”, desabafou.
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