Editora suspende artigos por indícios de fraude científica
Empresas comercializam textos previamente elaborados, muitas vezes contendo resultados falsificados ou alterados
Uma atitude até certo ponto incomum foi tomada pela Taylor & Francis, uma das maiores editoras científicas do mundo, que anunciou recentemente a suspensão das submissões para sua revista Bioengineered.
A medida, tomada em caráter de urgência, visa aprofundar a investigação de aproximadamente mil artigos científicos que apresentam fortes indícios de manipulação de dados. ou que são produto de empresas clandestinas, popularmente conhecidas como “fábricas de artigos”.
Essa paralisação, segundo o jornalista Jeffrey Brainard na revista Science, é uma decisão tida como “rara” no cenário editorial acadêmico, e tem sido amplamente aplaudida por observadores e especialistas em integridade de pesquisa.
As “fábricas de artigos” e os indícios de irregularidades
As chamadas “fábricas de artigos” representam uma ameaça crescente à ciência. Empresas comercializam textos previamente elaborados, frequentemente contendo resultados falsificados ou alterados, para que sejam submetidos a periódicos científicos por seus “clientes”.
Em alguns casos, essas firmas atuam como intermediárias para a inclusão de autores que pagam para figurar em publicações, mesmo sem qualquer contribuição real ao conteúdo da pesquisa.
A gravidade da situação na Bioengineered veio à tona graças ao trabalho de René Aquarius, cientista biomédico da Radboud University Medical Centre. Liderando um grupo de investigadores, Aquarius divulgou em março um pré-print apontando para uma vasta quantidade de trabalhos problemáticos na revista.
A análise de Aquarius e sua equipe revelou que, de um universo de quase 900 artigos publicados pela Bioengineered entre 2010 e 2023, cerca de 25% exibiam sinais claros de manipulação ou duplicação de imagens.
Um indicativo particularmente alarmante foi o salto considerável no volume de publicações: um aumento de dez vezes em 2021, superando a marca de mil artigos naquele ano. Apesar do modelo de acesso aberto da revista, que gera receita ao cobrar dos autores ou de suas instituições para publicar e, portanto, poderia incentivar mais submissões, a taxa anual de publicação da Bioengineered subsequentemente diminuiu.
É importante notar que a própria Taylor & Francis havia reconhecido em 2023 que a integridade editorial da Bioengineered havia sido comprometida em 2021 e 2022.
Repercussões e o futuro da publicação científica
Em um comunicado recente, a editora confirmou que mil artigos foram oficialmente marcados como sob investigação. O processo de validação – e, se necessário, retratação desses trabalhos – é complexo e demorado, pois exige comunicação com os autores, muitos dos quais podem contestar as decisões.
A equipe de René Aquarius ressalta que, com uma receita anual de centenas de milhões de libras, a Taylor & Francis dispõe dos recursos e da responsabilidade para conduzir uma investigação sistemática e completa.
A seriedade da crise ficou ainda mais evidente em abril deste ano, quando a Clarivate, uma respeitada empresa de análise de dados científicos, removeu a Bioengineered de sua base de dados bibliográfica, a Web of Science, citando sérias preocupações com a qualidade. Essa exclusão tende a desencorajar futuros autores a submeterem seus trabalhos ao periódico.
A medida da Bioengineered contrasta com ações mais drásticas tomadas por outras editoras. Por exemplo, a Wiley, em 2024, optou por fechar 19 de suas revistas da marca Hindawi e renomear outras, após suspeitas de vasta contaminação por conteúdo “pré-fabricado”.
Apesar dos pesares, René Aquarius elogia a intenção da Bioengineered em atacar os problemas: “O problema pode ser resolvido, e quero ver pessoas e organizações assumirem a responsabilidade quando as coisas dão errado. No fim, somos todos humanos. É importante que reconheçamos e abordemos esses problemas”.
O destino da revista é incerto. Allen Ehrlicher, um bioengenheiro da McGill University, tem dúvidas sobre o que será da Bioengineered: “Tenho dificuldade em entender por que os autores escolheriam publicar na Bioengineered depois disso”. A Taylor & Francis indicou que a pausa nas submissões será uma oportunidade de “considerar o futuro da revista”.
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