Crise de leitores divide opiniões na Feira do Livro de Londres
Executivos do setor editorial debatem se o declínio no hábito de leitura representa ameaça maior do que a IA para o mercado
Na Feira do Livro de Londres, realizada entre os dias 10 e 12 deste mês, dois debates mobilizaram editoras, agentes e profissionais do mercado editorial mundial: o avanço da inteligência artificial e a diminuição do número de leitores.
A CEO da Pan Macmillan, Joanna Prior, disse que “a queda no número de leitores é um problema muito maior para o nosso setor do que a inteligência artificial jamais será”, afirmou. “A IA muda a forma como trabalhamos. Mas a crise de leitura muda o fato de termos um negócio ou não”.
Para ela, o fenômeno extrapola o editorial: em um ambiente em que deepfakes e sistemas automatizados avançam sobre diversas áreas, os livros funcionariam como um dos últimos espaços de proteção do pensamento independente.
Divergências entre os líderes do setor
Nem todos concordam. O CEO da Penguin Random House UK, Tom Weldon, apresentou uma leitura distinta da situação. “Não acredito que temos uma crise de leitura; as vendas de livros infantis crescem anualmente há 20 anos”, disse. Weldon também ponderou que metade da população mundial nunca comprou um livro — dado que, segundo ele, não é novo. “Como amamos muito os livros, às vezes ficamos dando muito sermão”.
O setor, segundo ele, não é “anti-IA, mas está buscando formas de usá-la de maneira responsável, para remover algumas tarefas repetitivas”. Como exemplo, citou o uso da tecnologia para traduzir títulos ao árabe e convertê-los em audiolivros. Em um mercado potencial de 300 milhões de pessoas, apenas sete mil audiolivros estão disponíveis atualmente nesse idioma.
Formação de profissionais e novos leitores
A própria Feira de Londres mantém um programa voltado à entrada de novos profissionais no setor, desenvolvido em parceria com a Feira de Frankfurt e a PEN International desde outubro de 2024. A diretora da agência Serendipity, Regina Brooks, ligou a iniciativa diretamente à necessidade de ampliar o público leitor. “Networking é tudo aqui”, disse.
Uma estudante brasileira, Yanni Carneiro, mestranda em direitos internacionais na Oxford Brookes, visitou o estande do Brasil e foi convidada para integrar a delegação da Feira do Livro de Bolonha, prevista para o início de abril. “Eu entendi nesse momento que entrei não apenas em uma profissão, mas em uma comunidade”, afirmou.
Geopolítica no horizonte do mercado editorial
A abertura da feira foi marcada pela tensão geopolítica decorrente do conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã. Editores e profissionais do Oriente Médio cancelaram ou atrasaram viagens, incluindo quem dependia de conexões pelo aeroporto de Dubai.
Steve Jones, gerente geral da rede de livrarias Kinokuniya em Dubai e Abu Dhabi, relatou ao Publishers Weekly que estava de férias na Polônia e não conseguiu retornar. “Há mísseis e bombas explodindo nos Emirados e estamos muito preocupados com a segurança das nossas equipes nas lojas”, disse. “Mas os shoppings estão abertos, e ter acesso a livros é agora mais importante do que nunca”.
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