Contágio social, histeria coletiva e a psicologia da desinformação
Estudo detalha como redes sociais facilitam a disseminação rápida de informações ou desinformações, o que exige treinamento contínuo de resistência para proteger indivíduos e grupos
Cientistas sociais e psicólogos comportamentais da área de saúde pública têm tentado compreender o fenômeno do contágio social e a forma como a influência interpessoal modela condutas. Para contrapor a rápida disseminação de desinformação e normas prejudiciais, pesquisadores sugerem a aplicação de uma técnica de “inoculação psicológica”. Esse método, conhecido como “pré-desmascaramento” (pre-bunking), tem como objetivo “treinar” as pessoas para resistir à manipulação antes da exposição completa ao conteúdo falso.
As conexões sociais estabelecem caminhos de influência que facilitam a propagação de germes, doenças mentais e até mesmo padrões de comportamento. Um cientista social e comportamental indica que o estudo de eventos como a doença psicogênica em massa fornece pistas sobre a forma como a desinformação se alastra.
A importância da pesquisa se manifesta tanto no ambiente virtual, onde mentiras, distorções e desinformação se espalham com velocidade, quanto em eventos da vida real, como o surto de uma doença psicogênica ocorrido em 2019 na Malásia.
Em 2019, um evento chamou a atenção. Na cidade de Ketereh, península malaia, cerca de 40 meninas com idades entre 12 e 18 anos, de uma escola religiosa, gritaram de forma inconsolável. O evento, que chamou a atenção internacional, foi um surto de histeria coletiva que começou em uma manhã de sexta-feira. A estudante Siti Nurannisaa, de 17 anos, é considerada a “paciente zero”. Siti relatou ter sentido uma dor aguda, visto um “rosto maligno” e desmaiou, o que provocou uma reação de gritos e pânico entre os outros alunos.
A histeria em massa – ou doença psicogênica em massa – é definida como a rápida disseminação de sintomas físicos, como desmaios e convulsões, sem causa orgânica plausível, sendo atribuída a uma “reação coletiva ao estresse”. O sociólogo da medicina Robert Bartholomew chama a Malásia de “capital mundial da histeria em massa”. A teoria é que ambientes escolares com rígida disciplina religiosa podem gerar ansiedade e disparar eventos como os descritos.
“Trata-se de uma reação coletiva ao estresse que leva a uma superestimulação do sistema nervoso. (..) Pense nisso como um problema de software. (…) Os sintomas apresentados são reais – desmaios, palpitações, dores de cabeça, náuseas, tremores e até convulsões (…). Muitas vezes o episódio é atribuído a uma condição médica, mas para o qual nenhuma explicação biomédica convencional pode ser encontrada”, explicou Bartholomew.
Em resposta ao acontecimento, professores convocaram curandeiros espirituais islâmicos para realizar sessões de oração, devido à forte crença local no folclore e no sobrenatural, incluindo os espíritos Jinn. Especialistas (menos afeitos a explicações sobrenaturais…) defendem que o tratamento deveria consistir no aprendizado sobre o fenômeno e a integração de crenças espirituais com cuidados adequados de saúde mental. Siti Nurannisaa precisou de pelo menos um mês de descanso para se recuperar do incidente.
A influência das redes e a complexidade do contágio
O contágio social é a forma pela qual somos influenciados por outros indivíduos ou coletivos em nossas redes sociais – para o bem ou para o mal. As normas sociais são definidas como as percepções sobre a frequência e a aceitação de um comportamento específico em um grupo que nos é relevante. Embora estas percepções nem sempre correspondam à realidade, elas têm o poder de influenciar ou mesmo moldar a conduta individual.
Comportamentos e normas relacionadas podem se espalhar nas redes sociais de maneira similar a um vírus, mas com uma distinção: vírus frequentemente requerem apenas um contato, enquanto a difusão de comportamentos exige múltiplos contatos. Este fenômeno é identificado como contágio complexo e demonstra que os comportamentos aprendidos socialmente demoram a se fixar.
O contágio complexo é notado, por exemplo, na adoção de tendências de moda. Ver repetidamente um amigo adotar uma tendência ressurgida pode levar um indivíduo a questionar sua antipatia inicial. Essa dinâmica se torna ainda mais evidente nas plataformas de mídia social, onde o ceticismo pode desaparecer após a leitura de comentários de outros usuários.
Em um contexto mais sério, a desinformação – informação falsa espalhada sem intenção – e a desinformação – informação falsa distribuída intencionalmente para enganar – se propagam online de forma mais rápida e ampla do que a verdade. Isso significa que, muitas vezes, antes que seja possível refutar o conteúdo falso que penetrou as redes, o contágio complexo já se estabeleceu maliciosamente.
Pessoas difundem falsidades por diferentes motivos, nem todos com má intenção. A disseminação involuntária de falsidades também ocorre, em grande parte, devido à falta de atenção à veracidade do conteúdo ou a níveis reduzidos de literacia digital.
A solução é o “distanciamento social”? Não exatamente…
Uma das formas de combater o contágio prejudicial é utilizando a ideia do pre-bunking, um conceito dos anos 1960. O objetivo é treinar as pessoas a desenvolverem habilidades para identificar e resistir à desinformação antes de serem totalmente expostas ao conteúdo real. O método se assemelha às vacinas, que constroem imunidade por meio da exposição a uma versão atenuada do agente causador da doença.
O sujeito é exposto a uma quantidade controlada de informação falsa. Em seguida, ele é ensinado a reconhecer as táticas de manipulação mais utilizadas e a resistir à sua influência com estratégias de contra-argumentação baseadas em evidências. Esse treinamento de habilidades de resistência pode ser realizado por meio de testes, como o quiz pre-bunking with Google.
Este processo, que proporciona uma espécie de imunização psicológica, deve ser repetido gradualmente, com doses maiores de falsidade. Estudos indicam que a técnica é eficaz não apenas contra a desinformação, mas também para atrasar ou prevenir o início de comportamentos nocivos, como o uso de tabaco entre adolescentes. No entanto, a manutenção do efeito requer “doses de reforço” de treinamento, pois a proteção pode se esvair em poucos meses.
O treinamento capacita o público a reconhecer os sinais de falsidade. Táticas comuns incluem a falsa dicotomia, por exemplo: “Ou você apoia este projeto de lei ou você ODEIA nosso país”. Outras táticas identificadas por um guia prático de pre-bunking são a criação de bodes expiatórios e a falácia da rampa escorregadia (ou slippery slope).
Enquanto o pre-bunking foca na prevenção, o desmascaramento (debunking) é complexo; mesmo a mais eloquente refutação pode reforçar a persistência da desinformação. Para aqueles que já têm uma convicção firme, cientistas comportamentais aconselham abordagens com mais empatia e menos confronto. Pressupor que seu interlocutor admitirá que está errado e precisa ser corrigido quase nunca funciona. Funciona com você?
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Comentários (1)
Eliane ☆
22.09.2025 22:14Eu fico longe de redes sociais. Eu não tenho estrutura psicológica para acompanhar o dia a dia dessa gente "especialista "em tudo.