“Casada comigo mesma”: como o feminismo woke impactou toda uma geração
Pesquisas mostram aumento do isolamento entre mulheres jovens em países ocidentais, fenômeno associado à radicalização ideológica e à mudança na percepção das relações entre os sexos
Emma Watson cresceu diante das câmeras. Famosa desde os 11 anos, tornou-se milionária com a saga Harry Potter e, mais tarde, interpretou uma princesa da Disney no filme A Bela e a Fera.
O papel consolidou a imagem de uma mulher independente e engajada, alinhada ao discurso que ela própria passou a defender fora das telas. Em 2014, discursou na ONU Mulheres e virou embaixadora do programa HeForShe, voltado à “igualdade de gênero”.
Cinco anos depois, em entrevista à British Vogue, declarou estar “casada comigo mesma”, expressão usada para definir o fato de estar solteira aos 30.
Disse que buscava valorizar o autocuidado e recusar a ideia de que a felicidade depende de um relacionamento. Em setembro de 2025, no podcast do escritor Jay Shetty, afirmou: “Chegar aos 30 solteira me fez questionar muita coisa.”
O fenômeno não se limita às celebridades.
Dados recentes do Pew Research Center mostram que 42% dos adultos nos Estados Unidos vivem sem parceiro fixo. Entre jovens de 18 a 29 anos, 63% dos homens se declaram solteiros, ante 34% das mulheres.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que a taxa média de casamento nos países desenvolvidos é de 4,3 por mil habitantes, a menor da série histórica, e que a idade média ao casar ultrapassa 31 anos.
O afastamento entre os sexos também aparece nas opiniões políticas.
Pesquisa do King’s College London, em parceria com o instituto Ipsos, mostra que 53% das mulheres da geração Z se identificam como feministas, enquanto entre os homens o índice cai para 32%. Já 57% deles afirmam que “o feminismo foi longe demais”.
O estudo descreve o cenário como a “maior distância moral e emocional entre homens e mulheres desde os anos 1960”.
Para a socióloga Catherine Hakim, da London School of Economics, parte do novo feminismo transformou o homem em obstáculo moral, substituindo cooperação por antagonismo.
Segundo ela, “as jovens foram incentivadas a competir com os homens em todas as esferas, mas não a conviver com eles”. Hakim defende que a ideologia do empoderamento foi distorcida ao ponto de desencorajar vínculos afetivos, tratados como submissão.
O psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade de Nova York, explica que, quando a política ocupa o espaço da moral, o diálogo se rompe e cada grupo passa a ver o outro como ameaça. O resultado, observa Haidt, é o isolamento social.
No Brasil, a pesquisa Genial/Quaest confirma o mesmo padrão.
Mulheres jovens se concentram à esquerda, enquanto homens da mesma faixa etária se aproximam do conservadorismo.
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, esse desalinhamento “está afetando a convivência e tornando os relacionamentos mais raros”. Ele observa que o fenômeno se repete em sociedades urbanas de alta escolarização, como Coreia do Sul e Japão, onde o casamento é cada vez mais adiado.
A Coreia do Sul vive o exemplo extremo: a taxa de natalidade caiu para 0,72 filho por mulher, a menor do mundo, e o movimento 4B, que rejeita namoro, casamento, sexo e filhos, tornou-se popular entre mulheres urbanas.
Alves explica que “a retração afetiva e social é consequência direta de uma visão de mundo que associa dependência emocional à fraqueza”.
A psicóloga Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego, analisou a saúde mental de adolescentes e jovens adultos nos Estados Unidos.
Segundo ela, as taxas de depressão e ansiedade entre mulheres dobraram na última década.
Twenge relaciona o aumento à cultura da autossuficiência e da comparação constante: “o empoderamento prometeu liberdade, mas criou uma pressão permanente para parecer feliz e completa”.
A crítica cultural Camille Paglia adverte que “a liberdade não exige hostilidade [aos homens]” e que “a guerra entre os sexos é uma invenção moderna, sem vencedores”.
Paglia, uma das primeiras feministas a criticar o identitarismo, sustenta que o ressentimento político tem corroído a confiança entre homens e mulheres.
Estudos do Pew Research Center mostram que, entre adultos de 25 a 54 anos, a proporção de pessoas sem parceiro cresceu de 29% em 1990 para 38% em 2019. Em 2023, o percentual entre aqueles de 25 a 39 anos chegou a 42%, mesmo em países com alto nível de renda e educação.
Especialistas concordam que a independência feminina é uma conquista irreversível, mas divergem sobre as consequências da ideologização das relações. Haidt alerta que “a política moraliza tudo o que toca”.
Emma Watson, símbolo de uma geração criada sob o ideal de autonomia total, hoje expressa um sentimento que dados e pesquisas confirmam: o de que a independência, quando transformada em bandeira, pode deixar pouco espaço para o outro.
O fenômeno não é apenas social, mas psicológico. O isolamento cresce, as taxas de casamento caem e a frustração aumenta, sinais de que o modelo de emancipação sem vínculos pode estar cobrando seu preço.
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Comentários (2)
Ita
21.10.2025 14:41Situação que se observamos em nosso dia a dia, é só prestarmos atenção.
Annie
21.10.2025 10:55Excelente reportagem 👏🏿