Caderno de aulas de Mozart é encontrado em Paris
Biblioteca Nacional da França identifica manuscrito de 1778 com correções do compositor a uma aluna e sete obras inéditas
Um conservador da Biblioteca Nacional da França identificou um caderno de 44 páginas que reúne anotações de aulas de composição dadas por Wolfgang Amadeus Mozart a uma jovem aluna em Paris, no ano de 1778.
O material traz sete peças para flauta e harpa que eram desconhecidas até então e permite observar, lance por lance, as correções feitas pelo compositor ao trabalho da estudante.
Como o achado foi feito
O conservador da Biblioteca, François-Pierre Goy, avaliava um lote de manuscritos sem autoria identificada em fevereiro, num levantamento que fazia antes de deixar o cargo, quando reparou em um dos cadernos. A grafia se assemelhava a exercícios de harmonia que ele próprio havia feito como estudante.
Goy notou dois traçados distintos de caligrafia no documento — um do aluno, outro do professor — e identificou um modo particular com que o segundo desenhava certos símbolos musicais. Ele comparou o material a cadernos de aulas dadas pelo compositor mais tarde em Viena e a uma partitura autografada já pertencente ao acervo da instituição.
“Não acreditei no que vi”, afirmou Goy. Diante da possibilidade de engano, ele recorreu ao musicólogo Laurence Decobert, que chegou à mesma conclusão sobre a autoria da caligrafia.
Em abril, Armin Brinzing, diretor da Biblioteca Mozart da Fundação Internacional Mozarteum, viajou a Paris para examinar o documento: “É muito claro que é a caligrafia de Mozart”, declarou.
A aluna e o método de ensino
A aluna era Marie-Louise-Philippine de Bonnières de Guînes, harpista e filha de um duque. Segundo correspondência trocada entre Mozart e o pai da jovem, as aulas ocorreram entre maio e julho de 1778, período já conhecido pelos pesquisadores, mas sem registro documental detalhado até a localização do caderno.
O Duque de Guînes pretendia que a filha se tornasse capaz de compor sonatas para flauta e harpa, instrumentos tocados pela família. O novo material revela o passo a passo do ensino: o que a aluna escrevia e como o professor intervinha em cada trecho.
Em uma carta ao pai da estudante, Mozart relatou dificuldade em concluir um minueto durante uma das aulas e pediu que ela completasse a peça: “Olha só o idiota que eu sou. Comecei um minueto e nem consigo terminar a primeira parte, você teria a gentileza de terminá-lo?”, escreveu, segundo o relato da aluna na correspondência citada pela reportagem.
Obras para flauta e harpa
Das sete composições recuperadas, a maior parte consiste em peças breves, e uma permanece incompleta. Um movimento rápido, com duração de cerca de cinco minutos, recebeu intervenções mais extensas do compositor: segundo Goy, entre 75% e 80% do trecho devem ter sido escritos pelo próprio Mozart.
Até a apresentação do material, a única obra do compositor para essa combinação instrumental era o Concerto para Flauta, Harpa e Orquestra em Dó Maior, K. 299, escrito no mesmo período para o duque e sua filha.
As peças foram apresentadas ao público pela primeira vez no domingo, 21, na Biblioteca Nacional da França, em interpretação da flautista Mathilde Caldérini e do harpista Nicolas Tulliez, ambos integrantes da Orquestra Filarmônica da Rádio França. As gravações têm transmissão prevista pela emissora France Musique a partir de segunda-feira.
Caldérini relatou dificuldade em separar, pela partitura preparada por Goy, o que pertencia a cada autor, já que o documento não distinguia graficamente as duas caligrafias: “Não foi tão fácil adivinhar quem escreveu o quê”, disse a flautista.
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