Brizola procurou apoio de Fidel antes do golpe de 64
Biografia revela negociação secreta entre o governador gaúcho e regime cubano; Che Guevara poderia ter vindo
Dias antes do golpe militar de 1964, o governador gaúcho Leonel Brizola procurou Fidel Castro em busca de apoio financeiro e militar para reagir a uma eventual tomada de poder pela direita. A informação consta da biografia Brizola, volume 1: lobisomem contra o império, escrita pela jornalista Karla Monteiro e publicada pela Companhia das Letras.
Segundo o livro, o ditador de Cuba chegou a autorizar o envio de recursos e ofereceu o revolucionário argentino Che Guevara para comandar uma resistência armada no país, mas a mensagem não chegou a tempo de evitar a queda de João Goulart, cunhado de Brizola.
Pedido de ajuda a Havana
De acordo com a obra, o relato foi dado à autora pelo ex-embaixador cubano no Brasil em 1964, Raúl Roa Khoury, conhecido como “Raulito”.
Ele contou que Brizola solicitou uma reunião em uma residência próxima à embaixada cubana, no contexto do acirramento político que antecedeu a ruptura institucional. Ali, segundo Raulito, Brizola “pediu US$ 500 mil da época (cerca de US$ 5,3 milhões hoje, ou R$ 26,5 milhões) para o seu movimento”.
O diplomata relatou ainda que viajou pessoalmente a Cuba para transmitir o pedido ao primeiro-ministro Fidel Castro.
A avaliação do líder cubano, feita após o discurso de Goulart no Comício da Central do Brasil, em que o presidente reforçou o alinhamento de seu governo à esquerda, foi de que “ou bem ele tem tudo amarrado com militares, dirigentes sindicais e políticos, ou Goulart não dura mais um mês no poder”.
Fidel determinou então o retorno imediato do embaixador ao Brasil com uma resposta a Brizola.
Resposta que chegou tarde
Os militares agiram antes: em oito dias, Goulart foi deposto. Conforme a biografia, Cuba estava disposta a entregar de imediato metade da quantia pedida e incluir na oferta a presença de Che Guevara para liderar uma eventual resistência armada no Rio Grande do Sul.
Raulito não conseguiu localizar Brizola a tempo: “Como Brizola estava no Rio Grande do Sul, não pude vê-lo para entregar a mensagem de Fidel, com a ajuda prometida e a proposta de Che”.
Segundo O Globo, Almino Affonso, ex-ministro do Trabalho de Jango, confirmou o episódio à autora e explicou por que o fato permaneceu desconhecido por décadas — entre os motivos, a reformulação política de Brizola durante o exílio e o risco de questionamentos sobre soberania nacional, tema central de seu discurso político.
Para Karla Monteiro, autora da biografia, a chegada de Che Guevara ao Brasil naquele momento “teria mudado a história da América Latina”.
A publicação é a primeira de dois volumes dedicados à vida de Leonel de Moura Brizola (1922-2004). O segundo tomo, ainda sem data de lançamento, deve abordar a fundação do PDT, as passagens do político pelo governo do Rio de Janeiro e sua candidatura à Presidência da República em 1989.
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