Baterista da Legião Urbana contará história da banda em quadrinhos
Marcelo Bonfá lança sua primeira graphic novel, revelando a gênese da cena punk de Brasília e a trajetória da Legião Urbana e de Renato Russo
Marcelo Bonfá, o baterista da Legião Urbana, uma das mais importantes bandas de rock do Brasil, está prestes a lançar sua aguardada graphic novel.
Intitulada “A minha banda preferida de todos os tempos”, a obra promete ser um mergulho autobiográfico na vida do músico e sua convivência com o guitarrista Dado Villa-Lobos, o baixista Renato Rocha e, claro, o vocalista, letrista e líder Renato Russo, morto em outubro de 1996, em decorrência da AIDS.
A narrativa abrange desde o seu nascimento em Itapira, no interior de São Paulo, até sua mudança para Brasília nos anos 1970, e a subsequente imersão na cena punk local, que deu origem a grupos emblemáticos como Plebe Rude, Capital Inicial e a própria Legião. Com lançamento agendado para setembro pela editora Brasa, o projeto concretiza um antigo sonho de Bonfá de se dedicar ao desenho.
Das baquetas aos pincéis digitais
A incursão de Bonfá pelo universo dos quadrinhos não é recente, mas ganhou forma e consistência durante as extensas turnês de celebração dos 30 anos da Legião Urbana, iniciadas em 2015. Com longos períodos de inatividade entre os shows, que podiam durar dias, o músico encontrou no desenho uma maneira produtiva de preencher o tempo e exercitar uma paixão antiga, cuja habilidade já havia sido empregada em ilustrações para encartes de álbuns da própria banda, como “Música p/ acampamentos”.
A aquisição de um iPad da primeira geração em 2015 e a descoberta do aplicativo Procreate permitiram que Bonfá carregasse um “estúdio” criativo na estrada. O artista plástico Renato Alarcão, inclusive, ofereceu suporte técnico, auxiliando Bonfá a refinar seu traço, que ele mesmo descreve como “meio roots”. O baterista, que completou 60 anos em janeiro passado, reflete sobre essa transição e a realização de um objetivo de vida: “Decidi que seria desenhista quando ficasse velho. Acho que fiquei”.
Memórias de uma era e bastidores criativos
A HQ, inteiramente escrita e ilustrada por Marcelo Bonfá, oferece uma visão minuciosa da cena punk candanga dos anos 1970 e 1980, destacando o papel do grupo Aborto Elétrico. A narrativa da HQ acompanha a trajetória da Legião Urbana, desde os primeiros ensaios em Brasília com Renato Russo – a banda começou apenas com os dois, com o cantor no contrabaixo, passando por vários guitarristas até a chegada de Dado Villa-Lobos – até a chegada do grupo ao Rio de Janeiro para gravações na EMI.
Para garantir a precisão histórica de sua obra, Bonfá consultou diversas pessoas ligadas àquele período e à banda, como Dinho Ouro Preto, Dado Villa-Lobos, Evandro Mesquita, Fred Nascimento, o diretor artístico Jorge Davidson e Nelson Motta. O músico relata, inclusive, que “todos apareciam do nada quando eu pensava neles” ao buscar informações.
Embora não prometa “grandes revelações sobre a Legião”, uma banda cuja história é conhecida, mas pouco documentada visualmente, Bonfá diz que a obra documenta o seu lado dessa trajetória. A HQ retrata momentos específicos, como o catastrófico show de Brasília em 1988 que terminou em destruição. Questões mais sensíveis, como o relacionamento entre os integrantes ou a doença e morte do cantor Renato Russo, são abordadas com concisão, focando naquilo que está mais claro na memória do autor.
O baterista segue com projetos solo, incluindo apresentações com seu filho JP Bonfá na guitarra, e mostra otimismo quanto ao futuro, mesmo diante de antigas controvérsias, como a disputa pelo nome da banda: “Acredito que tudo termina bem. Se não está bem, é porque não terminou”.
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