A neurociência da admiração
Estudo da UCLA desvenda o impacto neurológico de experiências com arte, natureza e meditação, abrindo novas perspectivas para o bem-estar mental
Manhã/ Deslumbro-me/ de imenso
Giuseppe Ungaretti
(Tradução de Haroldo de Campos)
Pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA) publicaram na Frontiers in Human Neuroscience um estudo de neuroimagem que investiga como os momentos de admiração, maravilhamento ou transcendência podem remodelar o cérebro humano.
A equipe monitorou a atividade cerebral de nove adultos saudáveis por meio de um scanner de ressonância magnética funcional (fMRI), enquanto eram submetidos a imagens de arte gerada por inteligência artificial, outras, de cenas de natureza, e imagens cósmicas para meditação.
A ideia era mapear os processos neurais envolvidos nessas experiências para entender se havia ou não impacto significativo, e assim propor novas abordagens para o suporte à saúde mental e ao bem-estar.
O cérebro em diferentes experiências
Os achados da pesquisa apontam diferenças na ativação cerebral a depender dos estímulos investigados.
A meditação ativou redes neurais ligadas ao reconhecimento, à sensação e à memória, integrando percepção e autoconsciência. Essa prática promoveu um estado que unia a percepção e a introspecção, resultando em uma sensação de totalidade que superava a soma de suas partes.
A exposição a imagens naturais produziu um efeito calmante no cérebro. Ao observar paisagens como cachoeiras e florestas, os participantes exibiram redução na atividade de áreas conectadas ao estresse, à emoção e ao controle executivo. Esse fenômeno corrobora a teoria da redução do estresse, que sugere que a natureza nos restaura ao permitir que o cérebro relaxe, e não por excitá-lo.
Já a arte gerada por IA, apresentando cenas fluidas e abstratas, estimulou centros de processamento visual, mas envolveu menos sistemas cerebrais gerais, e não acessou áreas mais profundas relacionadas à memória ou ao auto-reconhecimento, sendo percebida como um estímulo visual intrigante.
Admiração como ferramenta biológica
O estudo sugere que a experiência da admiração – o deslumbramento, sobre o qual escreveram filósofos e poetas – modifica os sistemas de sensação, memória e autoconsciência. De maneira análoga à maneira como a fome molda as redes do apetite, momentos transcendentes podem reconfigurar as redes por meio das quais atribuímos significado e sentido ao mundo.
Nessa perspectiva, arte, natureza e meditação são ferramentas importantes para o cérebro. Elas auxiliam na redefinição do equilíbrio entre atenção, estresse e reflexão, sendo tão vitais para o bem-estar quanto a alimentação ou o exercício físico.
A pesquisa reforça a ideia de que o cérebro humano não é feito apenas para suportar desafios ou cumprir funções aprendidas evolutivamente, mas também para transcender-se. Hospitais, escolas, locais de trabalho – e mesmo prisões – poderiam (deveriam) integrar no ambiente arte que fosse restauradora, luz natural e espaços para contemplação.
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