A “mágica” da IA depende de mágicos humanos, diz pesquisador
Inteligência artificial, cada vez mais vista como autônoma, não funciona sem a essencial, e por vezes precarizada, mão-de-obra humana
A inteligência artificial generativa e o crescente universo do trabalho em plataformas digitais não funcionam sem a essencial, e por vezes precarizada, mão-de-obra humana. Essa é a análise de Rafael Grohmann, professor na Universidade de Toronto, pesquisador do Fairwork e diretor do Digilabour, que estuda o trabalho digital desde 2010.
Segundo Grohmann, a dependência de trabalhadores por trás das tecnologias digitais é um fator crucial a ser considerado ao discutir o futuro do trabalho e a possível regulação do setor.
IA e a dependência humana
Contrariando a percepção popular de que a inteligência artificial opera por si só, Grohmann ressalta que não há “mágica” por trás dessas tecnologias. Ele enfatiza que a IA depende de trabalho humano não regulamentado e mal remunerado, particularmente dos chamados “data workers”. Esses trabalhadores são essenciais para treinar os sistemas de IA, um processo contínuo e indispensável.
Para Grohmann, a ideia de que a IA deixaria de precisar de data workers só seria possível se os sistemas não fossem atualizados. Ele argumenta que sempre que um sistema de IA evolui para uma nova versão, seres humanos são necessários para revisar, atualizar e treinar os dados.
Além disso, afirma que quando a IA é alimentada exclusivamente por dados artificiais, ela “emburrece”, o que reforça a necessidade constante do trabalho humano para sustentar sua suposta autonomia. Essa dependência global das cadeias de IA em infraestruturas no Norte Global também significa que regulamentações locais são insuficientes para lidar com o tema.
A ‘plataformização’ além dos aplicativos
A discussão sobre o trabalho digital vai além de plataformas conhecidas, como Uber e iFood. Grohmann conceitua a “plataformização do trabalho” de forma mais ampla. Ela inclui, por exemplo, o uso de mídias sociais por empreendedores individuais para vender produtos ou fazer marketing digital.
Com a pandemia e a adoção massiva do trabalho remoto, a plataformização tornou-se a norma também para profissionais liberais, como psicólogos e advogados, expandindo significativamente o perfil do trabalhador de plataforma.
Grohmann observa que o impacto dessa mudança de paradigma é complexo e não uniformemente negativo. Enquanto algumas profissões, como a de jornalista, viram suas condições de trabalho, remuneração e estabilidade mudar ao longo dos últimos 20 anos, nem todos os trabalhadores de plataforma se sentem prejudicados.
Ele cita pesquisas que indicam, por exemplo, que trabalhadoras sexuais podem se sentir mais seguras utilizando plataformas, o que sugere uma melhora em suas condições. No entanto, essa percepção de melhora não implica que os trabalhadores comprem o discurso de serem “os próprios chefes”; a maioria das pesquisas aponta que eles não são contra a CLT, mas sim contra uma CLT de baixa qualidade. A precarização, segundo Grohmann, deve ser entendida como uma situação, não apenas um processo histórico.
Desafios, alternativas éticas e políticas necessárias
Diante da crescente plataformização e da dependência da IA no trabalho humano, surge a questão de como construir alternativas mais éticas e responsáveis. Grohmann sugere que a regulação, por si só, não resolve a situação, sendo necessário construir alternativas aos grandes conglomerados tecnológicos. Ele defende a importância de políticas públicas que apoiem ecossistemas como o cooperativismo e a economia solidária, bem como pequenas empresas.
Existem exemplos de iniciativas que buscam modelos diferentes. O AppJusto, em São Paulo, tentou oferecer condições de trabalho mais justas para entregadores, obtendo a maior nota em um relatório do Fairwork (3 de 10), mas acabou fechando por não conseguir competir em um mercado monopolizado. No setor cultural, a Means TV, uma cooperativa de streaming em Detroit, inova na organização do trabalho e na narrativa, mostrando que é possível operar fora da lógica das grandes corporações. Outros exemplos incluem a Subvert.fm e a Driverseat, uma cooperativa de motoristas.
O professor adverte que a inovação não consiste apenas em replicar o modelo de plataforma em uma cooperativa; é preciso pensar em que tipo de tecnologia e negócio são necessários conforme o contexto local. Ele sugere que o Brasil precisa voltar a apostar em experimentações e laboratórios, aproveitando o potencial de seus parques universitários e seu histórico em economia solidária e software livre. Há uma demanda por políticas públicas que incentivem uma onda mais experimental de economia digital, não apenas para grandes empresas.
Para Grohmann, a solução está em um “combo” de propostas: regulação, organização de trabalhadores e alternativas econômicas e tecnológicas, que ele engloba na “economia solidária digital”. Essa economia solidária digital vai além do cooperativismo institucional e valoriza diferentes formas de coletividade, lidando com diversas tecnologias, de ancestrais a IA.
No Brasil, a lei do cooperativismo é vista como “cruel”, levando muitos a preferir o MEI por questões tributárias, apesar da existência de movimentos e coletivos com valores próximos aos cooperativos. Grohmann critica a ideologia do Vale do Silício de “falhar mais, falhar melhor”, pois ela ignora que trabalhadores comuns e pequenas empresas não têm os mesmos recursos para se recuperar de fracassos que as grandes corporações. O sucesso, para ele, não deve ser julgado unicamente pela métrica de escala. A consolidação da economia solidária digital como alternativa requer uma política nacional ligada a essa questão.
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