A história do porteiro que leu mil livros
Trabalhador encontrou nos livros as portas abertas ao mundo; de Machado de Assis a Nietzsche, só quer viver em paz
Em meio ao cotidiano de luxuosos condomínios na Praia do Forte, no litoral norte da Bahia, uma história singular está sendo contada: a de Abraão, um porteiro de 40 anos, que encontrou na leitura não apenas um hobby, mas um caminho para o autoconhecimento em uma vida simples e plena de sentido.
Morador da comunidade vizinha de Barra do Pojuca, Abraão pedala 10 km diariamente até o trabalho e utiliza o tempo ocioso, especialmente durante o almoço em um condomínio de casas de veraneio, para se aprofundar em clássicos da literatura e filosofia. Ele estima já ter lido cerca de mil livros. Superou o analfabetismo funcional aos 13 anos e completou o ensino médio aos 21.
A jornada de aprendizado e as mil portas abertas
Nascido em Valença, no baixo sul da Bahia, em uma família pobre, Abraão começou a trabalhar cedo, aos 12 anos, vendendo coisas na rua. As dificuldades limitaram seu acesso à educação formal.
A dificuldade com a leitura foi superada com o incentivo da madrasta e de professores. Um momento importante em sua formação foi em 2001, ao ingressar no ensino médio, quando recebeu a chave da biblioteca da escola. Ali encontrou Rui Barbosa, Machado de Assis, Jorge Amado e outros tantos.
Abraão conta que mantém atualizado um caderno de capa preta, onde anota autores e títulos dos livros que lê. Anota, rabisca, marca. Não se apega à posse física dos livros; muitas vezes, pega emprestado e devolve. Comemora quando lhe dão o exemplar.
Já leu Nietzsche (Assim Falou Zaratustra, “complicado”), George Orwell (1984) e obras sobre história e política.
Filosofia de vida e visão de mundo
A leitura mudou sua maneira de ver a vida. Ele se identifica com a filosofia estoica, que prega uma vida simples, distante do apego material e da preocupação excessiva com o capital. “O conhecimento liberta”, afirma ele.
Essa filosofia, para Abraão, é viver em paz e felicidade, sem a necessidade de ostentação ou validação externa, em contraste com a pressão social por ter sempre mais. Acredita que a sociedade, especialmente em ambientes como o que ele trabalha, frequentemente vê pessoas em posição de serviço apenas por suas funções, não reconhecendo sua individualidade ou profundidade intelectual.
Ele relata que as pessoas podem achar curioso um porteiro que lê tanto. Citando Sócrates e Aristóteles, expressa humildade em relação ao conhecimento, afirmando que “tudo que eu sei é que nada sei”, e que seu saber é apenas “uma gota d’água no oceano”.
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Comentários (1)
Lucia Carlos Andrade e Freitas Santos
09.06.2025 04:47Em "A Elegância do Ouriço", a zeladora do prédio, Renée, come chocolate enquanto lê Dostoievski e Tolstói.