A filosofia ainda serve para alguma coisa?
Alguns filósofos e professores criticam a artificialidade acadêmica e propõem uma volta às origens práticas e existenciais
A filosofia contemporânea, ou parte dela, confinada em departamentos acadêmicos e publicada em jargão incompreensível, tem se distanciado de sua missão original de oferecer orientação prática para a existência humana?
Enquanto estudantes se perguntam sobre a relevância (existencial ou “prática”) de seus estudos, o feudo epistemológico se depara com um desafio adicional: a ascensão da inteligência artificial, que já demonstra notável capacidade de gerar ensaios complexos.
Diante desse cenário, filósofos e professores defendem uma espécie de “retorno às raízes” da disciplina, buscando reviver seu poder transformador e prático, tal como era praticada na Antiguidade.
O filósofo Shai Tubali, autor do artigo “A filosofia perdeu seu poder transformador. Eis como podemos revivê-la”, publicado na Big Think, argumenta que a filosofia, hoje, raras vezes oferece conselhos acionáveis sobre sua questão central: “Como devemos viver?” E isso foi uma das primeiras e mais insistentes perguntas de Sócrates e seus antecessores.
Esse descolamento com o real tem gerado frustração entre os estudantes, que se veem trabalhos desmontados linha por linha, lutando com ideias meticulosamente dissecadas, mas desprovidas de aplicação prática. Segundo Tubali, muitos textos filosóficos antigos não visavam apenas informar a mente, mas “formar a alma”. Meio fora de moda? Mas era assim.
A crítica à abstração não é nova. Bryan Van Norden, em seu livro Taking Back Philosophy, observa que filósofos acadêmicos atuais frequentemente perdem de vista a pergunta mais urgente da humanidade: “Qual é a melhor maneira de viver?” Ele adverte que o campo corre o risco de ser reduzido a um “exercício intelectual estéril”, com muitos pensadores absorvidos em quebra-cabeças puramente teóricos, ignorando as implicações de seu trabalho para o mundo real ou para suas próprias vidas. O sucesso, nesse contexto, é medido pelo rigor da análise e pela construção de argumentos impecáveis, que podem soar vazios para quem busca sabedoria prática.
A inteligência artificial e o imperativo da relevância
A emergência da inteligência artificial (IA) e sua crescente sofisticação adicionam uma camada de urgência a essa discussão. Conforme pondera Shai Tubali, a capacidade da IA de gerar teorias filosóficas e ensaios comparativos de alta qualidade, como demonstrado pelo ChatGPT em 2023, força a filosofia a um “acerto de contas existencial”.
O professor Sven Nyholm, por exemplo, relatou sua surpresa ao ver o ChatGPT produzir um ensaio impressionante sobre a ética da IA do ponto de vista de Martin Heidegger, superando, em alguns casos, o desempenho de muitos estudantes e até mesmo o seu próprio em improviso.
Este cenário levanta uma questão incômoda: se a IA pode articular ideias complexas com rapidez e eficácia, qual será o diferencial da filosofia se ela permanecer restrita à abstração? A disciplina corre o risco de se tornar irrelevante se não se reconectar com a experiência vivida. Talvez, o desconforto com a filosofia acadêmica contemporânea tenha razão de ser: ela se afastou do ideal de “amor à sabedoria”.
O legado transformador da filosofia antiga
Para compreender o que a filosofia pode vir a ser, Shai Tubali propõe uma viagem de volta à Era Axial (800–200 a.C.), período em que a filosofia, na Grécia Antiga, Índia e China, era uma busca vibrante e prática, profundamente ligada à vida sábia.
O historiador francês da filosofia, Pierre Hadot, percebeu que as obras clássicas não eram meros tratados teóricos, mas “ferramentas de transformação”, destinadas a moldar a alma do estudante, e não apenas a informá-lo. Digamos, autoajuda de altíssimo nível.
Sócrates emerge como o exemplo arquetípico dessa abordagem. Sua filosofia não era uma mera dissertação, mas uma “demonstração contínua e viva”. Suas escolhas, suas ações, sua coragem e até sua morte, discutindo serenamente a imortalidade enquanto bebia cicuta, eram parte intrínseca de sua mensagem filosófica. Ele não apenas falava sobre justiça – ele demonstrava o que era justo por seus atos.
As escolas gregas clássicas – da Academia de Platão ao Jardim de Epicuro e à Stoa de Zenão – compartilhavam cinco elementos interligados: o aprimoramento da mente, a prática de exercícios que uniam o interno e o externo, o uso de argumentos e teoria como instrumentos (e não como fins em si mesmos), a ênfase na vida encarnada e uma dimensão comunitária.
Segundo Tubali, a sabedoria era vista como uma “alquimia”, refinando a mente para alcançar um estado de ser iluminado e, fundamentalmente, uma paz inabalável. Para os antigos, a filosofia era uma “cura para as preocupações, angústias e misérias da vida”.
A teoria, para esses pensadores, era um meio para um fim: inspirar uma convicção firme que guiaria os estudantes a viver a filosofia. A verdade não residia apenas em ideias abstratas, mas precisava ser incorporada e experienciada através de práticas diárias. Como Blaise Pascal observou, as partes menos filosóficas da vida de Platão e Aristóteles eram seus escritos; a parte mais filosófica era “viver de forma simples e tranquila”.
Rumo a uma filosofia reencarnada
O afastamento da filosofia de suas raízes transformadoras teve razões históricas. Pierre Hadot dá algumas pistas: a tendência dos filósofos de buscar refúgio nas palavras em detrimento da ação; a absorção de práticas filosóficas pelo cristianismo, que relegou a filosofia a um papel servil à teologia; e a institucionalização da disciplina na universidade medieval, tornando-a uma linguagem técnica para especialistas.
Hoje, a oportunidade de resgatar essa “arte perdida de viver a filosofia” se faz presente. O artigo sugere que as salas de aula de filosofia poderiam reintroduzir exercícios práticos, como imaginar a “o eterno retorno” de Nietzsche, que convida a aceitar cada alegria e dificuldade da vida, ou escalar a “escada de Diotima” de Platão, que eleva o amor do terreno ao sublime.
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Comentários (2)
Avelar Menezes Gomes
27.06.2025 19:46Todo mundo tem, mesmo sem saber, sua filosofia de vida. Mas a verdadeira filosofia, essa apontada no artigo, está sim fazendo falta. Precisamos urgentemente de um Confucio contemporâneo
Marian
27.06.2025 18:04As nossas questões contemporâneas e que assombram os Brasileiros, são simples; tipo, quando os aposentados serão ressarcidos do roubo sofrido? E os criminosos, quando serão punidos? Tenho filosofado bastante a respeito disso.