A banalidade do mal: por que pessoas comuns causam sofrimento?
A história da maldade humana é contada por pessoas comuns, que acreditavam fazer o que lhes cabia
No controverso Eichmann em Jerusalém, de 1963, a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt se propõe a relatar (e a refletir sobre) o julgamento de Adolf Eichmann, um dos oficiais e burocratas do Holocausto. Capturado em Buenos Aires pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, foi sentenciado e condenado à morte.
Nos cinco artigos escritos para a revista The New Yorker, que deram origem ao livro, Arendt chegou à conclusão – que causou espanto, comoção e duras críticas na época – de que o nazismo não teria sido viável se dele tivessem participado apenas vilões cartunescos, figuras de extraordinária maldade. Pelo contrário.
O nazismo – e, podemos supor, qualquer regime totalitário – só foi possível porque centenas, milhares de colaboradores, eram e se viam como pessoas “comuns”, funcionários públicos, subordinados de baixo escalão. Eles não estavam participando de um genocídio, mas apenas… cumprindo ordens. Apertando botões. Dirigindo caminhões. Despachando documentos. Daí surge o conceito de “banalidade do mal”.
A filosofia continua a procurar razões e desrazões para a maldade humana. Longe de ser fruto exclusivo da insanidade ou maldade intrínseca, muitas das ações que causam sofrimento aos outros, desde violências históricas em massa até deslizes interpessoais diários, podem ter sua origem em falhas cognitivas comuns e na ausência de autoexame rigoroso.
Para o filósofo americano Hugh LaFollette, professor de Ética na Universidade do Sul da Flórida, essa deficiência na autoanálise pode ser considerada o “maior vício” da humanidade, por sua prevalência, impacto e controlabilidade, superando explicações tradicionais como crueldade ou egoísmo consciente.
Muito além da maldade explícita
Quando confrontados com atos desumanos, seja o comportamento de um assassino em série, a perpetração de genocídios históricos como o Holocausto, o massacre dos tutsi em Ruanda, ou mesmo a sustentação de sistemas opressivos como a escravidão, a primeira reação comum é atribuí-los a falhas de caráter graves, como insanidade, amoralismo (indiferença à moralidade) ou imoralismo (agir conscientemente de forma errada).
No entanto, LaFollette argumenta, com base em análises históricas e psicológicas, essas explicações “fáceis” são frequentemente insuficientes ou incorretas para caracterizar a maioria dos perpetradores. Muitos envolvidos em atrocidades históricas – como nazistas, inquisidores ou apoiadores da escravidão nos EUA – não se viam como maus; alguns acreditavam agir de forma moralmente permissível ou até necessária, justificados por crenças culturais ou institucionais profundamente enraizadas.
LaFollette questiona a noção de que o egoísmo é sempre consciente. Frequentemente, pessoas que agem egoisticamente não reconhecem seu comportamento como tal, oferecendo justificativas que, para elas, parecem plausíveis, mas que se baseiam em falsidades contextuais. A verdadeira raiz de muitos comportamentos moralmente deficientes residiria em falhas cognitivas menos dramáticas, mas amplamente difundidas.
O fator da “autoignorância”
O autor aponta para diversas “fontes de comportamento mal direcionado”, que incluem ignorância de informações relevantes (históricas, contextuais, psicológicas, institucionais), desatenção ao conhecimento disponível, vista curta (foco em desejos imediatos em detrimento de consequências a longo prazo) e vieses cognitivos (como o viés de confirmação ou a atenção seletiva). Essas falhas não são exclusivas de pessoas “más”, mas inerentes à natureza humana.
Essas deficiências são exacerbadas pela autoignorância – a incapacidade de nos conhecermos com precisão. Evidências psicológicas sugerem que a visão que as pessoas têm de si mesmas (inteligência, habilidades de liderança, traços desejáveis) frequentemente não corresponde à realidade ou ao seu comportamento observável. A introspecção é uma ferramenta limitada para o autoconhecimento, que é mais bem revelado pela observação do próprio comportamento (objetivo) e pela abertura à crítica alheia – algo que muitos de nós falhamos admitir.
É essa falha em se engajar em um autoexame rigoroso – e não apenas subjetivo – que o filósofo identifica como o principal vício. Pol Pot, líder revolucionário responsável pela morte de, pelo menos, um milhão de cambojianos, assumiu, quando entrevistado, que poderia ter cometido alguns erros, mas questionou: “Ainda agora, você pode olhar para mim: eu sou uma pessoa selvagem? Minha consciência está tranquila”.
Ele foi responsável factualmente pelo extermínio em massa em seu país, mas defende que “apenas uma pessoa selvagem cometeria genocídio”. Como, na própria avaliação, não é e nunca foi um “selvagem”, não poderia ser conscientemente perverso. Para ele, fez o que lhe coube fazer em seu contexto histórico, e isso lhe basta para tranquilizar a consciência.
Ao reconhecermos nossa suscetibilidade a essas falhas cognitivas e à autoignorância, podemos tomar medidas ativas para nos proteger e, assim, mitigar a “banalidade do mal” que atravessa, segundo Alexander Solzhenitsyn, autor de Arquipélago Gulag, o coração de todo ser humano. A mudança exige vigilância constante e disposição para observar e corrigir a si mesmo, mais do que aos outros.
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Comentários (1)
Mirolho
05.06.2025 19:03Não estariam os Israelenses perdendo sua humanidade ? Gaza worse than hell on Earth, International Red Cross chief tells BBC as aid centres close for day https://www.bbc.com/news/live/cvg5vyp33j1t