A agência de atores de IA que já assusta Hollywood
Estúdio anuncia expansão de universo digital protagonizado por atriz gerada por computador e acirra tensão com sindicato americano de atores
O estúdio de inteligência artificial Xicoia anunciou no dia 2 de março planos para construir o chamado “Tillyverse” – um universo digital centrado em Tilly Norwood, personagem gerada inteiramente por IA e apresentada pela empresa como uma futura estrela do entretenimento global.
A expansão inclui a contratação de Mark Whelan, ex-executivo da Amazon Prime Video, para liderar estratégia e operações do projeto, com previsão de lançamento até o fim de 2026.
A fundadora da Xicoia, Eline Van der Velden, descreveu o empreendimento como um espaço onde Tilly e outros personagens de IA “viverão, colaborarão e construirão suas carreiras”. A proposta prevê o desenvolvimento de propriedade intelectual em larga escala e uma reconfiguração do modo como talentos são criados e distribuídos na indústria do entretenimento.
O projeto e seus responsáveis
Whelan, ao comentar sua chegada ao projeto, afirmou que Tilly “já tem o impulso, o público e a faísca cultural”, e que a equipe está agora “escrevendo sua história e construindo seu universo”. Segundo ele, trata-se de “uma enorme responsabilidade – mas incrivelmente empolgante”.
Van der Velden complementou que a personagem é “uma personalidade, uma marca e uma futura superestrola global com uma narrativa envolvente”, e que tudo promete ser “ousado, divertido, um pouco caótico — e impossível de ignorar”.
A empresária já havia declarado, quando Tilly foi apresentada ao público, que a meta era transformá-la na próxima Scarlett Johansson ou Natalie Portman.
A Xicoia posiciona Tilly não como substituta de atores humanos, mas como “uma obra criativa, uma obra de arte”, nas palavras da própria Van der Velden, em resposta às críticas recebidas desde o lançamento da personagem.
Resistência da indústria
O anúncio reacendeu o debate sobre o uso de IA no setor audiovisual, especialmente entre artistas e o sindicato SAG-AFTRA. A entidade, que representa atores de cinema e televisão nos Estados Unidos, classificou Tilly como “uma personagem gerada por um programa de computador treinado com o trabalho de inúmeros artistas profissionais, sem permissão ou compensação”.
Para o sindicato, a iniciativa “não resolve nenhum ‘problema’ – cria o problema de usar performances roubadas para deixar atores desempregados, colocando em risco o sustento dos artistas e desvalorizando o talento artístico humano”. A declaração foi feita em contexto sensível: o SAG-AFTRA conduziu uma greve em 2023 que paralisou Hollywood por meses, tendo a regulamentação da IA como uma das pautas centrais.
A atriz Emily Blunt reagiu à apresentação de Tilly com preocupação direta: “Isso é uma IA? Meu Deus, estamos perdidos. Isso é realmente assustador. Vamos lá, agências, não façam isso. Por favor, parem. Por favor, parem de nos privar da conexão humana”.
Natasha Lyonne, que trabalha com tecnologias de IA licenciadas em parceria com atores reais, foi além: “Qualquer agência de talentos que se envolva nisso deveria ser boicotada por todos os sindicatos. Profundamente equivocada e totalmente perturbadora”.
Segundo a Rolling Stone Brasil, o comunicado da Xicoia foi divulgado um dia após o Actor Awards, cerimônia organizada pelo SAG-AFTRA em 1º de março. Na ocasião, o presidente do sindicato, Sean Astin, informou que a entidade retomou negociações com a AMPTP – associação que representa produtoras de cinema e televisão nos EUA – e que a proteção dos trabalhadores diante da expansão das ferramentas de IA é prioridade nas conversas em andamento.
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