144 anos depois, obras da Sagrada Família chegam ao fim
Basílica de Barcelona, projetada por Gaudí, atinge altura definitiva com instalação de cruz de 100 toneladas
A basílica da Sagrada Família, em Barcelona, enfim encerrou a fase estrutural de sua construção com a instalação da cruz que coroa a Torre de Jesus Cristo.
O monumento, que levou 144 anos para chegar à sua altura final de 172,5 metros, recebeu o último grande elemento arquitetônico previsto pelo seu idealizador, o catalão Antoni Gaudí — morto em 1926, exatos cem anos antes da abertura oficial marcada para este ano.
A cerimônia inaugural contará com a celebração de uma Missa Solene pelo Papa Leão XIV.
Cruz fabricada em 14 seções chega da Alemanha
A peça que finaliza a silhueta da basílica foi produzida na Alemanha e transportada até a Espanha em 14 módulos pré-moldados, compostos de concreto e aço inoxidável. Com altura equivalente a um edifício de cinco andares e peso aproximado de 100 toneladas, a estrutura exigiu meses de trabalho para ser instalada.
Cada módulo foi içado por guindastes até uma oficina suspensa a 60 metros de altura, posicionada acima da nave central da basílica. Nesse espaço, operários aplicaram acabamentos internos em pedra, revestimento de cerâmica branca esmaltada e painéis de vidro produzidos localmente, antes de a cruz ser montada e erguida à sua posição definitiva.
O uso do aço inoxidável, material que não estava disponível de forma difundida durante a vida de Gaudí, foi uma adaptação técnica necessária para conciliar resistência e leveza.
De acordo com o arquiteto responsável pelo projeto, Mauricio Cortés, a solução foi coerente com a intenção original do arquiteto: “Temos certeza de que estamos muito próximos [dos planos dele] para o exterior”, afirmou Cortés à CNN. “Já no interior, como ele não o definiu em detalhes, há mais margem para interpretação”.
Cortés também descreveu a visão que Gaudí havia concebido para a peça: uma cruz reflexiva capaz de captar a luz do sol durante o dia e iluminar o horizonte à noite, função que o revestimento cerâmico branco e esmaltado busca cumprir.
Guerras, incêndios e pandemia marcaram o caminho
A trajetória da Sagrada Família é pontuada por interrupções severas. Dez anos após a morte de Gaudí, em julho de 1936, a Guerra Civil Espanhola trouxe um dos episódios mais graves para o projeto: anarquistas incendiaram a cripta da basílica e invadiram a oficina do arquiteto, destruindo grande parte de suas plantas e modelos em gesso.
O que sobreviveu foi reconstruído por colaboradores de Gaudí que haviam documentado o trabalho em livros, artigos, fotografias e desenhos. Esse material se tornou a base para as gerações seguintes de arquitetos.
Conforme explicou Jordi Faulí, atual arquiteto-chefe das obras, o legado de Gaudí não estava apenas nos fragmentos físicos, mas em uma lógica projetual que podia ser replicada: “Ele criou um método para projetar um sistema. Quando analisamos os fragmentos de seus modelos, ou fotos deles, conseguimos interpretá-los facilmente, porque entendemos as superfícies que Gaudí usou no projeto e como elas se cruzam”.
O financiamento também representou um obstáculo persistente. Por se tratar de um templo expiatório — categoria que impede o uso de verbas públicas —, a construção sempre dependeu de doações privadas e, a partir de 2010, da receita gerada pela visitação paga.
A vulnerabilidade desse modelo ficou evidente durante a pandemia de Covid-19, quando o turismo internacional entrou em colapso. A recuperação, porém, foi expressiva: em 2025, a basílica registrou quase 5 milhões de visitantes.
Inauguração em 2026 marca centenário de Gaudí
A abertura oficial, prevista para este ano, coincide com o centenário da morte do arquiteto. O Papa Leão XIV, o 11º pontífice desde o início das obras, presidirá a cerimônia com uma Missa Solene e uma bênção formal da torre.
A basílica reúne ao todo 18 torres: doze dedicadas aos apóstolos, quatro aos evangelistas, uma à Virgem Maria e a central, a mais alta, a Jesus Cristo. Trabalhos de caráter não estrutural seguirão nos próximos anos, mas a conclusão da última torre encerra a etapa que define a volumetria final do edifício — e o capítulo mais longo da história da arquitetura moderna.
“Meu cliente não tem pressa”, disse Gaudí ao ser questionado sobre os prazos de conclusão.
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