O que diz o livro de Palocci
Em 2007, o já ex-ministro publicou 'Sobre formigas e cigarras', sobre seu período na Fazenda.

Antonio Palocci deve lançar nos próximos meses um livro, “com reflexões sobre os erros dele e do PT”.
Não será a primeira vez. Em 2007, o já ex-ministro publicou Sobre formigas e cigarras, uma autobiografia curta narrando episódios antes e durante seu período na Fazenda.
Confira algumas curiosidades sobre o que o livro diz (e omite). Ao que tudo indica, o próximo volume não vai ser muito melhor.
1. O sumiço de Duda Mendonça

O capítulo 2 de Sobre formigas e cigarras é dedicado à Carta ao Povo Brasileiro, peça-chave da vitoriosa campanha eleitoral de Lula em 2002.
A ideia da carta nasceu em almoço na Adega Leone, restaurante português de Ribeirão Preto, cidade da qual Palocci foi prefeito. O estabelecimento fechava às segundas, mas abriu uma exceção para receber uma refeição reservada para o alto escalão do petismo (o local fechou as portas de vez em 2015).
Na página 26, Palocci nomeia quem estava à mesa: Lula, Dirceu, Mercadante, José Genoino, o governador Zeca do PT e Guido Mantega, além do próprio Palocci.
Curiosamente, na memória do próprio Leone Rufino, dono do restaurante, Duda Mendonça também estava presente. O marqueteiro tem local de destaque no cartum publicado na revista Piauí em agosto de 2015 ilustrando a história.
No livro de Palocci, Duda Mendonça nem é citado.
2. O contato próximo com a Globo
Palocci conta que, durante a campanha de 2002, telefonou para João Roberto Marinho duas vezes para contar da Carta ao Povo Brasileiro. Marinho sugeriu a ele que o texto deveria incluir um “número forte” de meta de superávit primário, como 4%. A meta ficou fora do texto.
3. Dilma “competente”
Palocci chama Dilma de “uma das mais competentes colaboradoras do presidente” (página 47). Também conta que, na equipe de transição, contou com a ajuda de “economistas” como Gleisi Hoffmann e o “professor José Sergio Gabrielli”, que depois presidiria a Petrobras. Deu no que deu.
4. Fugindo dos repórteres
A decisão de nomear Palocci para a Fazenda veio a público pela primeira vez durante a visita de Lula a Bush no fim de 2002, ainda antes da posse. Palocci estava completamente despreparado para receber as perguntas da imprensa, e aceitou a sugestão de Lula para simplesmente não falar nada com os repórteres.
5. Fechado com Dirceu

Palocci diz que nunca hesitou em apoiar José Dirceu “sempre que percebia que uma determinada demanda da Casa Civil era importante para a estabilidade do trabalho” do colega. Dirceu saiu do ministério em junho de 2005, semanas depois da entrevista de Roberto Jefferson à Folha que fez estourar o escândalo do mensalão.
No diagnóstico de Palocci, “[n]os dois primeiros anos do governo Lula, o relacionamento entre o Poder Executivo e o Legislativo foi extremamente saudável”. E pensar que o autor é médico…
6. Fã dos juros
Em uma reunião no começo do governo, Lula insistia com os ministros para adotarem uma meta de inflação baixa, de 4%. Não era um objetivo realista. Palocci perguntou ao presidente se ele entendia o que significava uma meta baixa, e Lula respondeu: “mais juros. Isto está claro para mim”.
7. Sem fanfic

Palocci reconta o encontro em Bush e Lula na Casa Branca em 2002. Bush apontou para a tela do computador e informou: “Presidente Lula, por aquela tela eu sou informado, a cada manhã, de pelo menos cinco ameaças terroristas aos americanos”.
Bush buscava na época apoio político para a invasão ao Iraque, que ocorreria em março de 2003. Lula desconversou. No relato de Palocci, contudo, está ausente o papo para boi dormir que Lula vive repetindo, segundo o qual teria dito a Bush que sua guerra é contra a fome.
8. Cadê os detalhes?
O livro de Palocci se concentra em debates internos da equipe econômica e passa por cima das situações mais importantes. Em certo momento, Dirceu simplesmente “deixou o governo em um dos momentos mais agudos da crise política” (página 152). Não precisamos de um ex-ministro para saber disso.
9. Desinformados
No capítulo 13, dedicado ao mensalão (grafado com aspas pelo autor), Palocci afirma que “a figura de Marcos Valério e os seus empréstimos ao PT não eram conhecidos no Palácio do Planalto” (página 188). Foi mais fácil convencer Lula a respeito do tripé econômico do que contar essa.
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