Wilson Pedroso na Crusoé: Os bastidores maquiavélicos da política
O Brasil de hoje repete, em escala nacional, o manual descrito em Florença no século 16: medo, imagem, inimigos escolhidos, conveniência e manipulação popular
Há mais de quinhentos anos, Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe para explicar como o poder se conquista e, sobretudo, como se mantém.
Muito além de um manual de governantes, a obra tornou-se um retrato atemporal dos bastidores da política.
Quem a lê com atenção percebe que pouca coisa mudou. O jogo é o mesmo, apenas com novos personagens e cenários.
No Brasil de hoje, vivemos um enredo que Maquiavel reconheceria de imediato.
Governos tentam controlar narrativas, opositores exploram fragilidades e a sociedade, em muitos momentos, é reduzida à condição de massa de manobra diante de estratégias cuidadosamente calculadas.
Um dos ensinamentos mais célebres do pensador florentino é a ideia de que governar pelo medo costuma ser mais eficaz do que governar apenas pelo amor.
O medo mobiliza, disciplina e garante autoridade. Esse recurso é visível na política contemporânea: ameaças de caos econômico, de inimigos externos ou da volta de antigos adversários ao poder funcionam como instrumentos para manter bases unidas e silenciar críticas.
Maquiavel também advertia que parecer virtuoso pode ser mais importante do que efetivamente ser. A política atual comprova isso.
Discursos ensaiados, gestos públicos coreografados e postagens planejadas nas redes sociais constroem uma imagem de moralidade e eficiência, que raramente corresponde à prática.
O político que domina a comunicação larga na frente, ainda que a realidade nos bastidores seja outra.
Outro princípio essencial é a necessidade de inimigos. Nenhum governante se sustenta sem eles.
Criar, identificar ou demonizar adversários sempre foi um expediente clássico.
Hoje, as narrativas políticas se apoiam em antagonismos permanentes: de um lado, o “inimigo da pátria”; de outro, o “salvador da nação”.
A lógica é simples: dividir para governar. Enquanto a população se perde em brigas, o poder se concentra.
Maquiavel ainda afirmava que o governante…
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