Vorcaro mantinha um “Banco Central paralelo”, aponta PF
O esquema, segundo a investigação, envolvia dois servidores de alto escalão da área de supervisão bancária da autarquia: Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana
Mensagens apreendidas no celular de Daniel Vorcaro levaram a Polícia Federal a identificar o que chama de uma espécie de “assessoria paralela” do Banco Central em favor do banqueiro e dos interesses do conglomerado Master.
O esquema, segundo a investigação, envolvia dois servidores de alto escalão da área de supervisão bancária da autarquia: Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana. Os dados foram tornados públicos nesta sexta-feira, após determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A relação, descrita pela PF ao longo de 131 páginas, ia além do contato institucional. Paulo Sérgio, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), teria orientado Vorcaro sobre operações envolvendo os bancos Voiter, Will Bank e Letsbank, além de ajudá-lo a preparar reuniões com dirigentes do BC.
Em dezembro de 2023, por exemplo, o servidor indicou os argumentos que o banqueiro deveria apresentar ao então presidente Roberto Campos Neto, incluindo questões de governança, precatórios e atuação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A PF afirma que, com o tempo, Paulo Sérgio passou a revisar documentos que seriam encaminhados oficialmente ao próprio Banco Central.
Em um dos episódios, recebeu de Vorcaro um documento dirigido à autarquia e sugeriu alterações no texto. Em outro, forneceu argumentos para subsidiar discussões internas relacionadas à aquisição do Will Bank. O relatório classifica a atuação como uma “verdadeira assessoria paralela”.
O segundo elo identificado pela investigação é Belline, então chefe do Desup. Segundo a PF, ele também teria atuado como consultor informal de Vorcaro, participado de reuniões privadas e discutido assuntos que extrapolavam suas atribuições funcionais.
Em março de 2025, ao comentar a situação do Banco Master, Belline escreveu ao banqueiro: “precisamos chegar do outro lado”. Para os investigadores, a expressão indica alinhamento com os objetivos empresariais de Vorcaro.
A relação ganhou uma dimensão ainda mais sensível quando Belline passou a analisar minutas destinadas ao Banco Central e ao FGC. A PF afirma que ele oferecia pareceres e dizia que trataria internamente da viabilidade das propostas apresentadas pelo Master.
O relatório também aponta possíveis vantagens materiais aos servidores. No caso de Belline, a PF encontrou registros de pagamentos mensais, supostamente operacionalizados por terceiros, além de indícios de contratação fictícia usada para mascarar repasses. A investigação cita ainda uma viagem à França organizada por Vorcaro para Belline e sua mulher.
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