Um ‘dragão marinho’ de 180 milhões de anos emergiu da lama, revelando um dos maiores répteis fósseis da Grã-Bretanha
O fóssil quase completo revela um predador marinho gigante do Jurássico preservado por 180 milhões de anos sob a argila britânica.
Uma drenagem de rotina em uma lagoa britânica acabou revelando um dos maiores répteis pré-históricos já encontrados no país. O que Joe Davis, líder de conservação do Leicestershire and Rutland Wildlife Trust, avistou emergindo da argila em fevereiro de 2021 não era apenas um fóssil comum: era um ictiossauro gigante de aproximadamente 10 metros de comprimento e 180 milhões de anos de idade, preservado quase intacto nos sedimentos da Reserva Natural de Rutland Water.
O que é o ictiossauro encontrado em Rutland Water?
O espécime foi identificado provisoriamente pelos pesquisadores como Temnodontosaurus trigonodon, uma espécie de grande porte até então conhecida principalmente por registros na Alemanha e na França. Se a identificação for confirmada após a limpeza e preparação completa do fóssil, será também o primeiro registro da espécie em solo britânico. Paul Barrett, pesquisador do Museu de História Natural de Londres, descreveu o ictiossauro de Rutland como provavelmente um dos maiores répteis fósseis já encontrados, incluindo os dinossauros.
O Dr. Dean Lomax, especialista em ictiossauros que liderou a escavação, classificou a descoberta como uma das maiores da história paleontológica britânica. Somente o crânio do animal, com dois metros de comprimento, pesa aproximadamente uma tonelada. No total, o espécime ultrapassa duas toneladas considerando o revestimento de argila e gesso necessário para sua remoção.

Como os ictiossauros viviam nos oceanos do Jurássico?
Os ictiossauros eram répteis marinhos que coexistiram com os dinossauros, surgindo há cerca de 250 milhões de anos, durante o Triássico, e sobrevivendo até aproximadamente 90 milhões de anos atrás. Apesar de sua semelhança visual com os golfinhos modernos, não tinham parentesco com nenhum mamífero marinho. Assim como as baleias, seus ancestrais viviam originalmente em terra firme antes de retornarem ao oceano, o que significa que precisavam emergir à superfície para respirar.
Evidências fósseis com conteúdo estomacal preservado mostram que esses animais se alimentavam principalmente de peixes e lulas. O Temnodontosaurus podia atingir até 12 metros de comprimento, mas algumas espécies de ictiossauros chegavam a 25 metros, figurando entre os maiores predadores que os oceanos já abrigaram.
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Como foi realizada a escavação do fóssil?
Após Davis fotografar as vértebras e uma possível mandíbula expostas na lama, paleontólogos confirmaram que os restos pertenciam a um grande ictiossauro. Uma escavação formal foi organizada em agosto e setembro de 2021, em parceria com a Anglian Water, o Conselho do Condado de Rutland e o Leicestershire and Rutland Wildlife Trust. A equipe foi liderada pelo Dr. Dean Lomax, cientista visitante da Universidade de Manchester que já nomeou cinco novas espécies de ictiossauros.
A remoção exigiu um trabalho de engenharia meticuloso. Confira as etapas principais do processo:
- Os ossos foram envoltos em talas de madeira e placas de gesso antes de serem retirados em seções separadas.
- O bloco com o crânio pesava sozinho quase uma tonelada, e a seção do corpo adicionou aproximadamente mais uma tonelada e meia.
- Especialistas do Museu Horniman, do Museu de Peterborough e da Open University integraram a equipe de campo.
- Após a retirada, o espécime foi transportado para um centro de pesquisa, onde o trabalho de conservação segue sob supervisão do conservador paleontológico Nigel Larkin.

Por que esse achado é tão importante para a ciência?
Conforme relatado pelo Museu de História Natural de Londres, o espécime de Rutland é considerado o esqueleto mais completo de qualquer grande réptil pré-histórico já recuperado no Reino Unido, distinção que se estende além dos ictiossauros e inclui também os fósseis de dinossauros encontrados no país. Pesquisadores da Universidade de Birmingham dataram o espécime entre 181,5 e 182,5 milhões de anos, situando-o no estágio Toarciano do Jurássico Inferior, período em que um mar quente e raso cobria o que hoje é o centro da Inglaterra.
Uma visita subsequente ao local, em agosto de 2022, recuperou material adicional, incluindo amonites, belemnites e vértebras de outros ictiossauros. A análise de microfósseis, publicada no ScienceDirect, indica que pelo menos três espécies de ictiossauros do Jurássico estão preservadas nos sedimentos do reservatório, sugerindo que a região era ecologicamente rica durante aquele período.
O que vai acontecer com o ictiossauro de Rutland agora?
A próxima etapa exige financiamento para um programa de 24 a 36 meses voltado à remoção das jackets de gesso, preparação completa do esqueleto e sua montagem para exibição permanente. A Anglian Water e seus parceiros buscam recursos junto a fundos de patrimônio histórico para garantir que o espécime permaneça em Rutland, onde ficou intacto por 180 milhões de anos antes de ser descoberto por acaso durante uma operação de rotina.
A história desse dragão marinho jurássico lembra que o passado mais profundo da Terra ainda está enterrado sob nossos pés, esperando o momento certo para emergir. Acompanhe as atualizações sobre essa descoberta e não perca nenhum avanço da paleontologia mundial.
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