SP transforma data da ONU em plano para “afroturismo”
Setur-SP anuncia guia, crédito e medição de demanda; pesquisa mostra barreiras e poder de consumo do público negro no turismo
São Paulo celebrou no domingo, 31, o Dia Internacional da Pessoa Afrodescendente com ações voltadas ao “afroturismo”.
A Secretaria de Turismo e Viagens do Estado conectou a data a medidas de crédito, capacitação e coleta de dados. O objetivo declarado é transformar a comemoração em impacto econômico e inclusão no setor.
A Setur-SP destacou trajetórias do segmento.
Solange Barbosa, fundadora da Rota da Liberdade, opera roteiros sobre patrimônio negro desde 2006. Maria de Fátima de Oliveira Gonzaga, secretária adjunta em Caçapava, sinaliza presença de profissionais negros na gestão pública do turismo.
Carlos Humberto, da Diaspora.Black, estruturou plataforma com experiências em mais de 18 países. Segundo a secretaria, os casos orientam qualificação e promoção do tema. A pasta relaciona identidade cultural e geração de renda nos roteiros.
O mercado-alvo é amplo. A população negra soma 55,5% do país e movimenta R$ 1,7 trilhão ao ano, de acordo com diagnósticos do Ministério do Turismo. No estado, 41% dos moradores se declaram afrodescendentes.
Levantamento do Afroturismo Hub indica preferências e critérios de compra. Para 82% dos turistas negros, negócios liderados por pessoas negras são prioridade. Outros 62% pagariam mais por serviços com “treinamento antirracista”.
As barreiras também aparecem. Entre os respondentes, 70% não veem o turismo nacional como inclusivo e 55% relatam episódios de racismo em viagens. Os registros se concentram em aeroportos e aviões, restaurantes e bares, hotéis.
Nos ambientes citados, 76% apontaram problemas em aeroportos e aviões, 69% em restaurantes e bares e 67% em hotéis. Apesar disso, 64% planejam ao menos uma viagem nos próximos 12 meses. A Setur-SP usa os dados para orientar ações de qualificação.
No plano federal, o governo instituiu em novembro de 2024 o Programa Rotas Negras pelo Decreto 12.277, coordenado pelo Ministério da Igualdade Racial. A pasta descreve cinco eixos: infraestrutura, empreendedorismo e inovação, valorização cultural, promoção internacional e sustentabilidade.
O Ministério do Turismo lançou o Guia do Afroturismo no Brasil com 43 iniciativas por macrorregiões. A Embratur criou a Coordenação de Diversidade, Afroturismo e Povos Indígenas e o cadastro CAE Black. As ações buscam organizar a oferta e promover destinos.
Em São Paulo, a Setur-SP mantém Grupo de Trabalho de Afroturismo com agentes, guias, empresários e autoridades. Em 2024, publicou o Guia Afroturismo SP com dez roteiros e programou nova edição para 2025. O Centro de Inteligência da Economia do Turismo passará a medir cor e raça nas pesquisas.
O CrediturSP abriu linha de crédito para empreendedores negros. A secretaria lançou o Guia Turístico Religioso de Matrizes Africanas e Indígenas, com 35 casas, templos e centros culturais em 17 municípios. Foram realizados workshops e roadshows no interior para qualificar o trade.
No investimento e nas parcerias, o BNDES aportou recursos no projeto Viva Pequena África, no Rio de Janeiro, executado por CEAP, PretaHub e Diaspora.Black. O Ministério do Turismo firmou acordos com o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe para guias de investimento e internacionalização.
No cenário internacional, a ONU iniciou em 2025 a Segunda Década Internacional de Afrodescendentes, de 2025 a 2034, com o tema Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento. Segundo as Nações Unidas e o Ministério da Igualdade Racial, a primeira década, de 2015 a 2024, levou países a revisar leis antidiscriminação e criou o Fórum Permanente de Afrodescendentes em 2021.
Empreendedores relatam gargalos de oferta. Profissionais citados pela Setur-SP apontam dificuldade para contratar fornecedores negros com estrutura para grupos. As prioridades informadas incluem crédito, formalização, tecnologia e marketing.
A Diaspora.Black informou crescimento de 30 vezes nas reservas entre 2019 e 2023. A empresa registra que 91% dos turistas negros viajariam mais com maior investimento público e privado. Os órgãos envolvidos afirmam que política e capital precisam avançar juntos.
Com essas frentes, o governo paulista descreve estratégia que integra poder público, empresas e organizações civis. A conexão da data a instrumentos permanentes amplia escala da agenda no estado. Segundo a Setur-SP, o modelo pode orientar políticas em outras unidades da federação.
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